terça-feira, 28 de julho de 2015

A GAVETA: CONTO DO LIVRO "NÓ DE SOMBRAS"






                                          A GAVETA



- Estou apaixonada.

Pensou alto. Olhou ao redor para se alguém a ouvira falando sozinha, mas o bar estava quase vazio. Tranqüilizou-se. “Estou apaixonada”, continuou, mas agora só em pensamento e repetiu a afirmação para si vezes sem conta, como uma oração, um pouco como se ela ainda não tivesse a convicção devida e precisasse ser reforçada para que fossem eliminadas as suas margens de perplexidade. 
"Estou apaixonada”, e bebia um café vagarosamente. De repente, o pequeno ato lhe pareceu solene, as coisas precisando ser fruídas com cuidado, com adoração. Pensou que a palavra “esmero” resumia a maneira com que segurava a xícara e bebia. Era delicioso e era exasperador, havia naquilo algo intensamente bom, mas quebradiço. Tremia. Sofria dos nervos, não saía sem calmante na bolsa. Fosse como fosse, estava viva e era bom estar viva, mas, meu Deus, poderia ser menos delicado, menos solene. “Tenho medo”.
Ele já era mais para maduro, tinha um começo de calvície, mas os poucos cabelos pareciam tão macios, tão leves, tão suavemente pretos! O melhor, porém, era o segredo: não contara a ninguém, nem mesma a Anita, o que estava sentindo, quem era o que sentia. O segredo completo lhe dava uma sensação de superioridade mística, de exclusividade transcendente, “sou uma sacerdotisa, guardo o deus que ninguém viu.” 
Olhou para as mãos – era preciso que estivessem limpas, limpíssimas, tinha hora na manicure e usaria aquele esmalte rosa muito peculiar que vira nas unhas de uma freguesa outro dia. Impecável, era preciso estar impecável. Gostava do adjetivo: sintetizava com perfeição a claridade do dia de abril, a limpeza das ruas, as flores  da chuva de ouro no calçamento, o vento discreto, as conversas e risadas dos corretores ociosos na esquina da praça, o cheiro de carne com batatas em alguma panela nos fundos do bar, um assovio, vago ruído de torneira mal fechada, pardais, lembranças de um trecho de concerto para piano e orquestra de Schumann, vida, vida, e Ele.

Tinha os olhos bem pretos, mas luminosos – sim, há escuridões radiantes, as minas, os poços, buracos sem fundo em cujas paredes luzem obscuras pedras preciosas. A boca opulenta, oferecida, quase obscena pela grossura dos lábios, mas nobre. Um bigode preto, preto, pretume denso de alguma relva ônix num vale de maciez sobrenatural, algo do luxo, do conforto de um assento particularmente negro de coche mortuário. O bigode. Orelhas pequenas, nariz um pouco rapace, queixo bem rijo. O mesmo preto de sonho nos pêlos do peito.
Subitamente, teve uma palpitação muito forte, persignou-se, tinha medo dessa intensidade de amor. “Estou completamente perdida”. Era querer mais que a vida, era compactuar com alguma estranha legião de idólatras que descessem ao esgoto em busca de excrementos de ouro. E sabe-se quais infernos foram reservados para os idólatras.
Saiu rapidamente do bar. E, na rua, de novo ficou feliz. Pensou no jogo de buraco marcado para a noite na casa de Anita, na biblioteca a reabrir na segunda-feira, no dever de ir à missa das oito com a mãe. E pensou em homens inúmeros, vagos, erráticos: o garoto insinuante, vulgar, da floricultura, que estaria fazendo agora seus 17, 18 anos; o gerente do cine Esmeralda (era sabido que carregava mulheres para o escritório dos fundos); o açougueiro Nelson, com o boné puxado sobre o olho, cravando olhares carniceiros sobre mulher qualquer que lhe pisasse no estabelecimento; o frentista do posto, o bancário, o corretor palitando os dentes, o gesto de um, o sorriso de outro, ancas, pernas, shorts, pêlos, risadas, braguilhas contra as quais os olhos não podiam lutar. 
Anita lhe dizia: “Eu passo mal, você sabe. A gente só adivinhando, só querendo... Não te contei ainda?” – e vinha a história da mulher do proprietário do hotel Star, que não perdia viajante bonito, surpreendida com o vendedor de enxovais pelo marido, ajoelhada. “E o sujeito se levantou pelado e alegou que não tinha nada a ver com aquilo. Pode haver coisa mais indecente, querida?” – Anita quase gritava, rindo. Adorava enumerar os mais pavorosos detalhes, obrigava-a a tapar os ouvidos, a correr para outro aposento.
Horríveis, todos os homens. Mas, não, não havia ninguém como Ele. Com Ele, nenhuma dessas atrocidades: haveria dor, pois era um macho, mas o êxtase compensaria. Ninguém saberia. Ninguém, exceto ela, o conhecia. E tremia porque seria hoje à noite.


A missa acabada, telefonou para Anita dizendo que não iria ao buraco, “estou indisposta, cansada, uma dor de cabeça... vou tomar um analgésico, ler um pouco, depois dormir...” “Você só me dá canseira, hem? Não te convido mais.” Dona Palmira via um programa humorístico na televisão. Seu Olavo, o vizinho de parede-meia, ouvia alto uma transmissão de futebol. 
Muito barulho para seu gosto. Era questão de ter paciência. Com o silêncio de lá pelas onze, onze e meia, Ele viria. Foi arrumar alguma coisa na cozinha. Ouviu um pio de pássaro desconhecido, começou a balbuciar uma Ave Maria. Tão nervosa, deixou espatifar-se um prato; a mãe acorreu para reclamar e ajudá-la a recolher os cacos, achou-a pálida, esquisita. “Não é nada não”, garantiu, mas estranhou a própria voz: era e não era a sua. Parecia-lhe deformada, involuntária, a voz de uma Beatriz maligna, independente, nem um pouco humilde, nem um pouco respeitosa, nada do que se pensava a seu respeito e era forçado por seu comportamento previsível. A “boa moça” nada podia contra aquela força que parecia misturar desprezo, zombaria e uma avaliação implacável, obscena, de si mesma. Precisou ir olhar-se no espelho para verificar se o rosto não estaria um pouco retorcido. Nada. Graças a Deus, era ela ainda. Linha por linha.
E então? Cessaram os ruídos. Agora ouvia apenas a tosse da mãe, uns vagos automóveis passando longe, um vento algo mais pronunciado na espirradeira junto à janela do seu quarto. Abriu-a. Acendeu um cigarro, dos que fumava escondida da mãe. Havia um cão magro lamentando do lado de fora do portão. Alguma ave noturna ruflou rápido por sobre a casa. Estava impaciente. Ia da janela para o interior do quarto e daí voltava para a janela. Não teria sido melhor se houvesse cancelado o encontro? Mas, não demorou para que a sombra familiar, densa, apontasse na esquina, como de hábito. Mantivera-se lá, íntima e desconhecida, até a noite de hoje, para a qual fora marcada a aproximação. Ele fez um sinal, ela assentiu. Desceu correndo para o portão. Correu para a silhueta de cigarro na boca.


Enquanto a mãe chorava incontrolavelmente na sala, mas ainda achando voz para explicar, contar feitos e virtudes da filha, oferecer café, perguntar de doentes e ausentes, Anita andava pelo quarto. Dona Palmira em nada tocara, supersticiosa. Anita via a janela aberta, o criado-mudo, o abajur, o guarda-roupas, tudo perfeitamente em ordem. A morta estava impressionante: cabelo arrumado, cara branca, branca, um jeito de querer sorrir na boca, o vestido azul turquesa (Anita sabia que era o seu favorito, o “de ver Deus”, como ela brincava), batom, unhas feitas, um esmalte que nunca a vira usar. “Estava indisposta, com dor de cabeça”, ela ouvia dona Palmira dizer no corredor, “...e não se queixou comigo, Anita que me disse. Quebrou um prato. Coitada, a aparência não era boa”, e de novo os soluços, os gritos. “Era cardíaca, sempre suspeitei que fosse cardíaca. Mas o Dr. Calixto dizia que era só nervosismo.”


Anita olhava para a cama. E sempre atentando para cada pormenor do quarto, sentia que tudo ali era incomodamente correto, limpo, organizado; pensou que havia naquilo um asseio exagerado, mas, bem, Beatriz sempre fora um tanto maníaca em questões de limpeza e ordem. Maçante às vezes, por que não pensá-lo, embora estivesse morta? Arrependeu-se do pensamento, imaginando que ela o ouviria. Foi à janela e olhou para rua, para a esquina. 
Não era estranho que quisesse ficar ali, que o quarto a atraísse como um santuário obscuro? Poucas vezes entrara nele, Beatriz era ciumenta de sua privacidade, mesmo com ela, a melhor amiga.
Subitamente, interessou-se pela penteadeira com uma curiosidade incomum. Aproximou-se do móvel. Era perturbador pensar que haveria um olhar, ainda que fosse o olhar de uma morta, às suas costas, para censurar essa indiscrição compulsiva: abrir a primeira gaveta. E Dona Palmira, não poderia entrar a qualquer momento? Não: chorava e tagarelava na sala.
A gaveta não continha nada exceto uma fotografia, e bem grande. Não, não era uma fotografia, mas um recorte de revista. Mostrava um homem extremamente sedutor, um quarentão, camisa entreaberta no peito, um cigarro nos dedos, encostado a um poste de uma esquina manifestamente falsa, um cenário. 
Era uma propaganda de colônia masculina. A imagem era de um realismo quase ideal, de um preto e branco que oferecia tudo, a precisão técnica podendo ser classificada como impecável. Impecável, caiu nas mãos de Anita, o recorte feito com o capricho típico de Beatriz. “Que homem!”, Anita suspirou, apalpando o peito, e fitou o rosto no recorte longamente. Teve a impressão de que seu olhar era correspondido com ardor, com familiaridade, pelo do fotografado.
Dobrou o recorte cuidadosamente e enfiou-o na bolsa, olhando para a morta como a pedir-lhe desculpas. Deixou o quarto. Tinha uma expressão perfeitamente digna, conveniente, compungida, para falar com Dona Palmira e os presentes, que esperavam lá embaixo a chegada do caixão. Exultava com seu segredo. Saberia ocultá-lo.

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