domingo, 26 de julho de 2015

NOS FUNDOS: CONTO DE MEU LIVRO "NÓ DE SOMBRAS"











NOS FUNDOS



Tinha certeza de que agira mal o deixando entrar.

Lembrava-se do primeiro momento: ele ali no portão, um saco às costas, uma barba de meses, os olhos muito grandes e vivos, admiráveis em lucidez e orgulho para uma figura tão lastimável no resto. Batera palmas, mas, quando fora atendê-lo, com um gesto, apontando para a boca, ele dera a entender que era mudo. O gesto tinha seu quê de autozombaria. Porque não havia nada de frágil na figura; ao contrário – era mais para impositiva. Estava ali como uma oportunidade para ele exercer sua compaixão, mas de modo algum se diminuía por isso. Parecia ciente de alguma coisa sua, profundamente interior, de alguma vergonha irremissível de que ele mesmo tinha no máximo uma vaga cogitação. O olhar agudo, calmo, era estranhamente familiar, íntimo, e parecia dizer: “Somos implícitos”. Ou era só uma suposição sua?

O quartinho nos fundos, que já servira de despensa, poderia servir perfeitamente. O homem aceitou-o por sinais, com displicência, como se tal generosidade não fosse mais do que devida. Na verdade, parecia ter certeza de que um acordo dessa espécie teria de ser feito, tal a naturalidade com que ocupou o cômodo, pondo o saco no chão. De noitinha, ouviu-o entrar no banheiro de fora e daí a pouco aparecer barbeado, sorridente, à porta da cozinha. Surpreendeu-se com um rosto curiosamente juvenil e era espantoso que existisse um rosto como aquele, um corpo ágil e fresco, sob a ruína que se apresentara no portão.

O passo seguinte foi arranjar-lhe roupas suas. O homem o previra, parecia, com o olhar tácito, e seguira-o até o armário embutido no quarto. Olhou com atenção para as peças nos cabides e apontou uma dada camisa, uma calça das novas. Despiu-se ali mesmo. Não usava roupa de baixo, e ele olhou sua nudez de esguelha, um pouco humilhado. Vestido, sorrindo, pegou uma caixa de fósforos na cozinha e no ladrilho do quintal ateou fogo às roupas velhas, olhando para as chamas com um contentamento de moleque. Batia palmas. De súbito, porém, adotava um ar grave e maduro (afinal, que idade tinha?). Ele se desconcertava com tão rápidas mudanças, mas estava fascinado.



O fascínio passou a transtorno quando descobriu que seu hóspede não dormia. Noite adentro vagueava pelo quintal, os passos cheios (parecia-lhe proposital que pisasse daquele jeito), chutando coisas, como se possuído por um tormento que não admitisse possibilidade de repouso, coisa que contrastava com a relativa calma que ostentava ao longo do dia. Irritava-se, queria sair à janela, insultá-lo, expulsá-lo, mas mal se movia na cama, tapando os ouvidos com o travesseiro. Porque o tipo, para piorar, tinha uma gaita que vinha soprar à sua janela – sempre uma mesma musiquinha, espécie de polca desconhecida e provocativa. Ouvira-a em algum lugar, quando menino. Estava associada a alguma coisa que a mãe classificava como “indecente” e era assoviada por um mulato que, mãos nos bolsos, rondava o quarteirão de boas famílias.

Era a quarta noite quando teve coragem de chegar à janela, abri-la e mostrar a inevitável carranca. Ele tirou o instrumento da boca, sorrindo. Tinha o ar cândido de um menino cuja travessura houvesse surtido o efeito esperado, mas que sabia, de qualquer modo, poder contar com uma indulgência ilimitada devido ao seu encanto. Aproximou-se do parapeito, quase encostando o rosto no seu, desafiando-o a tomar uma atitude. Gozava seu recuo. De bem perto, ele sentira o perfume: o atrevido passara a sua colônia mais cara. 

- Você está abusando – disse, embora soubesse ser inútil. Mas tinha raiva, raiva com o que o outro parecia apenas divertir-se. Os olhos dele diziam: “Você não vai dormir, vai ficar acordado, como eu. Você terá que sofrer a minha presença enquanto eu bem desejar.” 

Sentia-se curiosamente débil, submisso ante essa figura tirada das ruas, do nada. Vivia muito só na casa, depois da morte do pai, entregue a leituras, incapaz de procurar um emprego, saindo à noite apenas para passeios inúteis pela cidade, andanças sem rumo às quais imprimia um passo enérgico, como se tivesse um objetivo bem definido. Parava num bar ou noutro, sem encontrar companhia. O mudo, apesar de tudo, era uma. Resignava-se, mas temia por um pior cuja natureza não conseguia adivinhar.





Mais à vontade nas ruas do que em casa, ultimamente. Não era possível ficar lá, suportando os modos do outro. Que agora se movia com toda liberdade pelos seus aposentos, embora mantivesse o quartinho dos fundos como seu reduto. Habituara-se a comer à mesma mesa, visitava a geladeira sem embaraço, mudava de roupa conforme a veneta, abrindo o armário sem consultá-lo, soprava a intolerável gaita por muito, muito tempo, engordava, tornava-se despudoradamente sadio, rosado, sempre a mudez que lhe parecia agora um muro conveniente atrás do qual podia olhar e manipular o mundo alheio com uma falta de consideração substancial que haveria de ser sempre perdoada. Gostava das noites de tempestade, os olhos em vivacidade voraz ao fitar os relâmpagos. 

Só lhe dava um pouco de paz quando saía sem aviso para passeios misteriosos dos quais retornava a passos imperceptíveis. O que o interessava lá fora? Impossível saber. Embora trafegasse no seu à-vontade ofensivo pela casa, ele não tinha a mesma desenvoltura para ir até o quartinho, respeitava-o, temia-o, e o enigma lhe doía – afinal, a casa não era sua e o outro só um hóspede agora invasor, revoltante? Mas a casa não parecia sua. Reagindo, carregava a chave consigo para preservá-la, para a figura se limitar ao seu lugar nos fundos, mas uma noite chegara tarde e o que encontrara? – a sala em desordem, quebrados os discos, os sofás virados, sobre o retrato de seu pai morto urina e fezes; uma janela fora arrombada e a gaitinha em zombaria soava lá nos fundos. Tinha o dever de pô-lo à força na rua, precisava vencer essa pusilanimidade incompreensível. Mas só sentia resolução e coragem enquanto não se via frente ao olhar tranqüilo, gozador, poderosamente sabedor de sua miséria e senhor de sua esquiva intimidade.



Vira-os muitas vezes, uma coisa rápida, perturbadora, a contragosto registrada pelo olhar – os muitos mendigos das ruas, tipos solitários, loucos, monologando, atirados em bancos de praças. Havia os sem-braços, os de olhares vivos, trocistas, insanamente ávidos, bocas desdentadas, risadas acusadoras. Percebera na cidade um aumento vagaroso, porém seguro, dessas figuras de dar mais medo que pena. À entrada da matriz dormia um velho com seu saco – assistia missas silenciosamente, persignava-se, só falando de vez em quando para esbravejar contra “pederastas, rameiras, iníquos”, isto é – todos os presentes, incluindo o padre, em cuja batina uma vez cuspira. Catava atenta e minuciosamente coisas do lixo, bebia restos de refrigerante, olhava intensamente os restos, como se procurasse algum segredo vital; certo dia olhara-o e ele se sentira como que julgado por uma potência inapelavelmente drástica, cuja sentença seria melhor não ouvir, não, nunca saber; desatara a correr, mas o palavrão proferido lá atrás, às suas costas, o perseguiria pelo resto do mundo.

Melhor ignorar a existência deles. O que de modo algum os suprimia. Eles continuavam ali. À noite em algum terreno baldio, reuniam-se em torno de fogueiras improvisadas para comer restos. Uma vizinha sua com freqüência reclamava de que havia um desgraçado cagando em sua varanda muito encerada e espalhando o produto em sua porta, numa tentativa de escrever sabia lá o que. Cães e gatos caseiros desapareciam. Outra vizinha tivera um casal de tuins decepado. Tudo isso ele sabia por ser inevitável ouvir comentários do quarteirão: gente desagradável, saliente, bisbilhoteira, com a qual não queria nenhuma espécie de relação. E não conseguiria ter qualquer uma, ainda que tentasse: consideravam-no um esquisitão irremediável, um orgulhoso sem brecha.

Tinha de conviver com o mudo. Passo contrito, abriu o portão da casa invadida, tarde da noite. Fora preciso beber um pouco, o que contrariava a sua abstinência habitual (temia desinibir-se, dizer – a quem? – inconveniências, mostrar-se miseravelmente sentimental e apelativo como os bêbados dos quais mantinha distância). Abriu a porta, a sala às escuras, procurou o botão da luz, atirou-se numa poltrona. Havia ruídos em seu quarto.

Nem foi preciso forçar a porta: estava entreaberta, o quarto iluminado, e viu o corpo nu passar, ele segurando uma garrafa de cerveja. Com cuidado, pôde ver tudo – a mulher de quatro, ele a untar a parte a ser penetrada. Primeiro, gritaria, ele rindo, rindo, fosse uma festa o suplício que infundia, e depois, uma careta que passou de resignada a feliz e pedidos dela para que não, não, nunca parasse. Impossível continuar vendo aquilo. Voltou para a rua, saindo a passo abafado para que não o notassem, para que a cerimônia não fosse interrompida. Precisava beber mais.



A segurança, a precisão com que manejava o canivete para abrir uma melancia o atraía, mesmo não querendo olhar para aquela direção. Acabara de jantar, e o mudo lidava com a melancia sentado à soleira da porta. Comeu uma enorme fatia com um apetite desaforado, insistindo para ele aceitasse, dando-se ares de que fosse o anfitrião, o dono das comidas disponíveis da casa e, magnânimo, o convidasse. 

Esse tipo de cinismo, tão habitual, já não o revoltava – estava antes fatigado, abúlico, esperando apenas que, de um momento para outro, numa de suas saídas, o estranho não voltasse mais. Não podia fazer nada senão contar com o insondável daquele temperamento: iria embora como viera, inexplicavelmente. No entanto, olhando melhor para o fundo de si, sentia certa tristeza ao cogitar dessa partida racionalmente desejável. Melhor não pensar nisso.

Nesse dia, ele pusera um alçapão com alpiste e arroz quebrado no quintal. Apanhara vários pardais cujas asinhas e pés cortara lenta, deleitosamente, com uma tesoura de costura. Os únicos sons que conseguia emitir quando alegre, excitado, raivoso, eram horríveis (ele tapava os ouvidos), tentativas ansiosas de fala num tom sufocado, algo entre a euforia e impotência, vácuo que ganisse.

“Fica quieto, filho da puta, lazarento!” - rugia, e o outro, percebendo os insultos, satisfazia-se visivelmente como se, afinal, a maldição da mudez não fosse mais terrível que a exasperação da fala infrutífera. 

Numa de suas ausências, juntou forças para ir ao quartinho. Entrou com a cautela de quem pisasse em território estritamente alheio. Um colchão estendido, garrafas e garrafas de cerveja vazias, suas roupas num varal improvisado, cuecas suas, sapatos seus. Sobre um caixote havia tocos e velas que trouxera da rua – um periquito de plástico, pequenos calendários de mulheres nuas, os restos de uma boneca de estupefatos olhos azuis, uma carteira, a flâmula de um clube de futebol. Junho, acumulara, ao lado do colchão, caixinhas de fósforos de cor. Por isso os risinhos infantis na noite?

A gaita estava presa a um barbante amarrado a um prego na parede. Arrancou-a dali e, com a força do ódio penosamente retido nessas semanas, atirou-a no chão, pisando-a interminavelmente. Não bastava: procurou um martelo em casa e retornou para amassá-la em definitivo. Depois, deixou-se cair sentado num canto e ficou desmoronado, atônito, cansado como que de um esforço além de toda compreensão. Olhava para o canivete reluzindo sobre o colchão, vazio.



Dormia. Na ilimitada extensão e na imprecisa largura de um deserto, caminhava a chamar, desesperadamente, o nome do pai. Não reencontrava o velho, mas sim um armário enterrado nas dunas, copos, xícaras, pratos espalhados, coisas da sua casa numa desordem que, sentia, nunca mais seria possível reparar – nenhuma harmonia, nenhum rearranjo que lhes desse, restituiria o que quer que fosse. Então, o deserto virava um túnel repleto de excrementos humanos que tinha de atravessar, mas afundava na água de esgoto a cada novo passo. Era agora um rio pesado, turvo, invencível, feito de todos os dejetos do mundo, e ele nadava com lentidão extrema, ia afogar-se, mas certa mão masculina o tirava da água, puxando-lhe os cabelos. Era ele, gigantesco, rindo, rindo muito. Salvava-o, mas para quê? – para pô-lo na palma e levá-lo à boca de dentes perfeitos, imaculadamente afiados, e...

Estava em pé, suando. Rezou, embora houvesse anos se considerasse indiferente a qualquer espécie de religião. Era tarde, a noite muito avançada. Precisava sair, ir ao bar. De manhãzinha, em retorno trôpego, achava engraçado ver os entregadores de pão se desviando dele, imprecando, em suas bicicletas, e aquela mistura de vozes refeitas, dispostas, tosses, caminhões rosnando para dar partida, galos. De algum modo, em meio à confusão de imagens torturadas, chegara à certeza do que deveria ser feito para acabar com a situação. Bambeava, queria rir, ao abrir o portão e tomar o caminho para os fundos.

Havia luz de vela no quartinho. A porta estava aberta, silêncio, mas o hóspede na certa não estaria dormindo. Indagava-se como era possível existir isso, uma criatura tomada por algo como um inferno de vigília em que realidade e alucinações formassem uma única massa consciente, febril. Viu a forma estirada no colchão. Embora mudo, que ouvidos! – levantou-se prontamente. Parecia estar à sua espera - ostentava aquele sorriso habitual de compreensão maliciosa, de aviltamento cúmplice. Só faltava que lhe desse boas vindas. Bebera muito, pois o via longe, alto, como uma forma que pudesse tocar o teto. Piscou para reduzi-lo a seu tamanho verdadeiro, e, ainda assim, não conseguia deixá-lo de achar mais alto e mais forte.

Não houve nenhum movimento ou dele ou seu, ambos estacados, olhando-se, medindo-se, e quem devia começar? Mas o hóspede mexeu-se e tirou o canivete que trazia à cinta devagar, acariciando-o, tranqüilo, numa expectativa de quem conhecesse com perfeição o seu papel num acordo e não precisasse de pressa. Lambia a lâmina, sem afastar o olhar. 

Deu o primeiro passo, depois o segundo, hesitante, e rumou em direção à abominação que segurava o canivete junto à boca, um sorrisinho inequívoco, um ar de segurança e desdém. Esse ar não se alterou minimamente quando ele, fechando os olhos, travando os dentes, abaixou as calças e deixou pender o sexo mole. Só houve uma mudança naquele rosto incapaz de voz – uma mudança para triunfo – quando, baixando a cabeça, ele ordenou:

- Pode cortar.









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