BELMIRO AGONIZA
(Para Rosângela Vieira Rocha, em Brasília)
Vieira Rocha, em Brasília)
Ele não queria dormir: dormisse, sonharia com os carregamentos a fazer e com aquela prestação de contas que teria com o patrão na qual faltava alguma coisa, número crucial, pelo que seria repreendido, talvez demitido. “Mas, calma, bem, não é assim, não há de ser nada!”, ela implorava, procurando não chorar, segurando-lhe a mão; estava achando-a fria, era óbvio que se assustava, mas continuava – “Olha, o remédio vai fazer efeito, esses pensamentos, essa bagunceira na tua cabeça, tudo vai passar..."
Ele olhava para a dupla como se estivesse de fora, de muito longe. Raro o pai lhe pedia alguma coisa, ajuda ou conversa: ou era a sua mãe ou preferia que fosse chamado outro filho, o mais velho, o primogênito, que morava no quarteirão de cima. Ele se casara recentemente e se aborrecia por ter que sair de casa e ver um doente, mas vinha. A portas fechadas, conversavam, a mãe sentada ali, rezando; braços cruzados, cabisbaixo, sentia-se perfeitamente inútil e queria que isso acabasse logo. “O Celso demora muito; o que a senhora acha que esses dois conversam?”; “Xiu...Não sei. E a gente não tem que saber, viu?”
O mais velho tendo se retirado, recomeçavam as queixas: o teto ia desabar porque vigas e ripas estavam podres; o relógio do corredor fazia barulho demais e, no entanto, era preciso que a todo momento lhe dissessem as horas, que lhe repetissem qual dia era na folhinha – não acreditava na resposta e precisava a folhinha na mão, conferi-la, bom, eis o mês, é este mesmo, o dia, uma quinta-feira, o número, o número...Pelos seus cálculos, pelo que o doutor dissera, mais um mês, estaria curado. Curad sim, mas, porra, porque tanta gente batendo prego ali perto, ali fora, aquele sem-fim de martelos batendo, fincando? “Não tem nada, bem, é cisma sua, só cisma!”; “Eu escuto, eu escuto muito bem, meu ouvido é muito bom, viu? muito bom! É prego que não acaba mais, prego, prego...” Quando não era isso, havia uma boiada passando pelo quarto, a noite inteira o tropel, as patas, “...muito, muito boi, Nena...Eu já não agüento ver tanto boi!”. E a sede. E o fazer nas calças, que era quando mais chorava, de vergonha, porque ela o limpava, cuidadosa, estóica, conseguindo o milagre de não deixar o rosto acusar o impacto do fedor. Ele não se aproximava nesses momentos, porque os gemidos do pai lá dentro o assustavam, mas teve a curiosidade de olhar uma vez e viu o pijama arriado, as pernas magras, muito brancas, com as veias azuis nítidas, e a mãe viu-o à porta, fazendo sinais desesperados para que se afastasse. Cuidava do seu homem- do que fora seu homem – e isso era lá entre eles.
Não era assim havia pouco mais de meio ano, quando o caminhão estacionava e não era possível ignorar que ele chegava – anunciava-se com buzina de irritar o quarteirão todo, entrava à sua maneira estridente, alegre, pisando com a segurança de quem retornasse a um reino só seu, depois de meses passados em estradas e fazendas. Chegando aos 60 anos, ainda assim vinha com aquele vigor absurdo e ele, dormindo, irritava-se, praguejava, a madrugada rompida por aquele estardalhaço, aquele bater violento no portão, os sapatões rangendo, um grito lá na varanda porque a mãe já se atirara em seus braços e os dois matavam saudades. Demoravam a dar-se conta de sua presença contrariada: lavava o rosto, escovava os dentes e preparava-se para a mesa do café porque o dia, então, começaria mais cedo, já que eles ficavam conversando, as luzes acesas, ouvindo os discos de sucessos italianos, até tomarem senso. Não o ignorava, mas era muito tempo depois de chegar que lhe dava um safanão e lhe passava a mão grossa na testa, dizia um “E aí, moção? Cuidando bem da minha Nena?”, e ele respondia com um sorriso embaraçado. O aumentativo não fazia sentido, mesmo lhe parecia mofa – mais menino, franzino para seus dezessete anos, estava longe dos modelos que ele admirava. Deixava-os entretendo-se com conversas e com Nico Fidenco no “granello di sabia” porque o dia estaria perdido, em casa – restava-lhe sair e buscar alguma cara conhecida pela cidade. Vantagem seria, no almoço, comer alguma das receitas inesperadas que a sua mãe faria.
Ele, monstro de sadio, de modo algum prenunciava essa figura agora inválida no quarto – onde o bichinho tenaz, vingativo, naquele quase metro e oitenta de morenice clara, poucos cabelos brancos, poucas rugas, os dentes ainda todos seus, braços e pernas rijos de mato, carga, luta, movimento, volante? Quando ausente, a mãe passava horas ouvindo aqueles discos e indo seguidamente à janela, sabendo ser inútil, porque ele apareceria apenas quando tivesse que aparecer; punha-se então a trabalhar com mais empenho com as freguesas de cabelo e manicure, recebendo-as ali ou indo às casas, deixando-o só com os deveres do último ano de ginásio.
Secretamente, ele tinha o mapa – dispunha-o na mesa e examinava os pontos, traçando outros, os que supunha poderem acompanhá-lo com exatidão nos trajetos que fazia longe deles, com o caminhão onde estava escrito “Xodó da Frota”: aqui Presidente Prudente, acolá Mato Grosso, a fazenda Barreirão; uma estrada que talvez fosse a que usasse naquele momento; ele atravessa pontes, pára em algum posto rodoviário, conversa com guardas, desce para urinar com aquelas pisadas fortes, os sapatões imundos; há mato e mais mato, verdes que nunca acabam, o cansaço das muitas árvores sem sinal de gente, dos cerrados sob o sol; o pai na ponta de seus dedos, ela marca com lápis de cores diferentes esses lugares onde ele esteve, está ou estará na certa; ouve as conversas, sabe de tudo sobre seu trabalho, embora se creia, na casa, que ninguém é mais alheio. Guardava o mapa traçado em folha de caderno com papel de seda só quando exausto de especular, desenhar, redesenhar rotas, rodovias, escrevendo os nomes das fazendas e acidentes geográficos com letras cuidadosas, de imprensa.
Praguejava e chutava o calçamento, indo para o centro, porque se incomodava com não saber em que mundo se movia agora, crepúsculos truncados, olhares que o mediam, que pareciam entre penalizados e ávidos por saber mais notícias ruins, o cheiro do médico com sua maleta, gente que aparecia às janelas abertas com uma xeretice impenitente, enxotada por Dona Nena, mas reincidindo sempre, perguntas e comentários que eram como pêsames antecipados com os quais não sabia como lidar. Os amigos pouco estavam interessados nele, porque em geral ficava afastado dos esportes, medroso de expor as pernas, de ser ridicularizado pelo corpo de que não podia se orgulhar – sobretudo, nada de urinar perto de tanta argúcia para fraquezas e inferioridades e tanta crueldade nas zombarias. Sonhava ter quem lhe explicasse o que havia, que espécie de tormento era aquele, o que estava para perder; precisaria ser um adulto, um desses amigos que os personagens de alguns dos livros e gibis encontravam, mais velhos, bem maduros, tutelares, compreensivos, capazes de uma indulgência clarividente, sempre as palavras mais certeiras.
Não havia ninguém assim. Mas havia o bar do Vasco, numa das ruas principais. Estava aprendendo a fumar, a engolir algumas daquelas misturas ardentes, que lhe davam dores de cabeça tremendas e uma sede que nem cachoeiras saciariam, na madrugada; sabia fazer olhares duros, manter uma cara de sarcasmo e desafio diante dos freqüentadores mais assíduos, não se rebaixaria, não se acanharia diante daqueles olhares que tinham no máximo uma complacência divertida com sua inexperiência mascarada de orgulho.
Lá estava ela, Lili Caburé, a mulher que ia quase toda noite comprar cigarros, afrontando os tipos, que se punham, alguns, de pé, entre reverentes e alarmados, ou paravam o bilhar para conferir até onde iria o atrevimento; Vasco, cego de um olho, sempre mascando fumo, divertia-se com a presença e lhe entregava o maço com a mão enorme lerda, meio negaceando, meio querendo fazê-la sentir o que podia significar isso de adentrar reduto de homem, sabe com o que está mexendo, moça? Quanto a ele, vinha costurando, em tremores, uma espécie de projeto de coragem, e agora era questão de segui-la, ignorando assovios surdos e cochichos, quando saía rapidamente para um dos quarteirões laterais. Ela dera sinais de que seria receptiva ao que ele quisesse, e queria o quê? Sabia, mas não podia aspirar a tanto. Só podia segui-la, ouvindo os saltos finos repicando no calçamento, a bolsa balançando em seu braço, vez em quando um relance de olhar para trás para conferir se ele estava mesmo seguindo-a, se não se perdia do caminho que ela lhe ia delineando. Meteu-se por uma rua mais pobre, passou por portões, cães e girou uma chave numa casa de fundos.
Que era isso? Um vestíbulo, e havia música, um toca-discos, uma luz coberta com papel de seda azul e, num canto, como que desmantelado num sofá, um sujeito magro e alto, de cabelos bem curtos, pálido, fazendo um bico com os lábios, examinando-o, trocando com ela um olhar de entendimento. Suado, um pouco de preto escorria de suas sobrancelhas, as bordas dos olhos de um castanho molhado também se sujavam e ele esfregava o incômodo com as costas da mão esquerda, amuando. “Filho do Bel, é?”, foi tudo que disse, enfadado, tirando um palito de fósforo da caixa e acendendo um cigarro com um vagar preciosista. A seguir, ajustou a sua voz à da cantora do disco, de modo a parecer a mais afinada e precisa das imitações, e lançou a cabeça para trás, andando pela saleta como um manequim lânguido e agonizante, num estupor afetado. Não era possível saber quem estava cantando o “chegou a hora/chegou, chegou/meu corpo treme e ginga qual pandeiro...” Parecia uma exibição preparada para ele, a mulher ria baixinho e aplaudia o cantor, mas, sem conseguir a sua adesão, parou. Depois, fez sinal para que ele entrasse num quarto. A primeira coisa que fez foi pedir que olhasse para o retrato de um homem jovem, emoldurado sobre um criado-mudo. Seu pai próximo aos trinta anos. “Fui namorada dele, não sabia? Naquela época, bem, era Liliana de Souza, nada de Lili...”
Não encontrava o que dizer, lançando olhares para o retrato e para a mulher, tentando achar nela uma semelhança tranqüilizadora com a mãe, mas não havia: era morena, enxuta, mais conservada, talvez abaixo dos cinqüenta, um olhar duro, a boca muito pintada. Sentada na cama, quis que se sentasse ao seu lado e acendeu um cigarro, “...não fica envergonhado, eu conheci bem o teu pai, meu querido...” E o inevitável: “Me diz como ele está. Que raio de doença é essa? Sempre foi tão forte...” Ele continuava sem poder falar, trêmulo, e o quarto, o perfume dela, a luz, a voz do cantor, ou do disco?, chegando da sala contígua, oprimiam-no. De modo que se dirigiu para a janela, abriu-a, olhou para fora, para outras casas, para a cidade, e dali, sentindo-se no seguro, no parapeito, virou-se para olhar direto para ela. Mas não tinha resposta, não se sentia capaz de descrever logicamente o surgimento e o desenvolvimento da doença. De modo que preferiu ouvi-la, o pouco que disse, uma espécie de monólogo sobre seu pai, sobre as muitas noites passadas com ele, mesmo depois do casamento, sobre certas promessas – uma de construir casa para ela em cidade próxima – que não tinham sido cumpridas, mas ela não se importava – ah, não, por alguém como o Bel, qualquer sacrifício valia! era um canalha, mas, que charme! nunca houvera nada parecido, e “veja, querido, eu conheço homem, eu conheço o mundo...”.
Ela se constrangia ouvindo-a, parecendo que a servia como ouvinte como outro homem a serviria para a cama; a passividade o esgotava, além de enchê-lo de raiva do maravilhoso ausente, do verdadeiro e único motivo da conversa. Em dado momento, simplesmente deu-lhe as costas, voltou a interessar-se pela vista da cidade, o que não estancou o desabafo dela. Depois, talvez cansada de falar sozinha, ela abriu a cortina de fitas de plástico coloridas, que valiam como porta entre quarto e sala, para que o cantor entrasse e confirmasse o que ela dizia, ao que ele concordava, lançando olhares para ele, para o filho, olhares que faziam comparações, que se detinham em pontos seus que o deixavam ruborizado, que recordavam, avaliavam, motivavam sorrisos – os dois se compreendiam em tudo. “Também era terrível, não era, Souza?” “Oh, se era, Lili! E gozado: o mocinho aí não se parece muito com ele...” “Mais tarde, vai parecer. Olha o jeito do nariz, um pouco da boca. Eu acho que vai...” O tipo mantinha um hesitante, não querendo parecer indelicado e manifestar sua incredulidade. Não iria dizer que ele não podia nem vagamente aspirar a se assemelhar ao assombroso Bel. Depois, ela foi para os fundos, e, ao voltar, trazia na mão um embrulho, que lhe estendeu.
- Isso era dele...Pode ficar pra você, acho que deve ficar.
- Não. Eu entrego para ele...
- E tua mãe deixaria? Melhor você esconder bem.
Levou-o à porta, sempre seguida pelo cantor, que fazia gestos semelhantes aos seus, erguia a cabeça quando ela a erguia para uma afirmação, fumava como ela, soltando a fumaça assim que ela a soltava, além de se manter como uma parte dela (ah, era caso de compartilhar tudo!) logo atrás, mesma pele, mesma alma. “Manda lembranças pro Bel...”, ele ouviu, achando que tinha ouvido os dois.
Não olhou para trás quando saiu, mas ouviu os cicios e, passado um portão, abriu o papel manilha rosa do embrulho: era um facão.
Para consolar a mãe, ele punha a mão no seu ombro, e ela lhe molhava a palma com os beijos excessivos, balbuciando “Miro, Miro, Miro”, desesperada com as evidências sempre piores da evolução da doença do pai. Ele se irritava por ela não tirar o nome dele da boca, afastava a mão com jeito. O pai estava magro demais, ossos atritando-se no pijama, e fazia à noite ruídos como que involuntários, saídos de um peito que lutava pelo ar, se engalfinhava com patas invisíveis, de uma força aniquiladora crescente; gritava seu nome, e ela acordava já certa de que era o fim, de que era preciso suprimir aqueles sons com sacudidelas, com rogos, com ternuras perfeitamente ineptas até que cessassem por si só. Fosse o que fosse, aquilo – tarântula de mil perninhas a deslizar pelo breu viscoso e lento – o devastava com uma fúria alegre e indiferente a gemidos, com leis e caprichos ininteligíveis para uma humanidade que já não era possível reconhecer, esvaída sob a ação de sombras meticulosamente aplicadas em destruir e triunfantes no nascedouro. A mãe tinha que poder, mas não podia, não podia mais, e numa tarde abraçou-se a ele, praticamente gritando: “Me pediu para se olhar no espelho. Mas eu não vou fazer isso, não vou deixar!”
Celso se recusava a vir vê-lo – mal pisava no quarto, a sua expressão traía horror ao que estava vendo, ao cheiro que era impossível atenuar, e queria tudo da vida – a mulher bonita, jovem, um filho a se desenhar – menos sentir tanta repulsa e culpar-se por senti-la. Ouvia o pai e saía sem palavra, ganhando o portão, montando de volta na bicicleta, aliviado pelo ar da rua, até que de novo sua presença fosse exigida e ele, terrivelmente incomodado, mas moralmente obrigado a vir, voltaria, desejando que isso acabasse vez por todas e que só lhe restasse cuidar das únicas coisas que o interessavam.
Ele pedia coisas que não podiam ser atendidas: que lhe aparecesse uma irmã havia anos alheia, moradora em Andradina, para que conversassem, resolvessem pendências obscuras que agora tornavam-se urgentes, que ele podia enfim esclarecer; que fosse removido aquele maldito telhado que ia desabar logo, logo – ele via, as vigas se soltavam, as telhas estavam quebradas, convinha chamar pedreiro o mais rápido que pudessem; ainda em algum canto do quintal, não havia um filho da puta martelando, não o deixando dormir? por que não mandavam esse homem embora? – os bois continuavam a passar, centenas, e o barulho que aquilo fazia...Onde estavam Belo, Ramos, Vidigal? – os parceiros de viagens de caminhão sim apareceram – e Belo, risonho em qualquer circunstância, dissera que em breve estariam de volta às cachaças e ao torresmo pururuca no bar do Hermes, fazendo-o rir – se aquilo era uma risada – também. Mas fora uma visita só, e agora era só ela na vigia para que tudo que ele pedisse fosse atendido prontamente, um rosário nas mãos, descuidada da aparência, vez que outra assistida também por uma prima, uma vizinha. Ele para quase nada valia, nunca o pai pedia que entrasse no quarto, nem mesmo para narrar uma de suas alucinações cobrando testemunho para o que via. Quando gritava, quando suas falas eram impossíveis de ignorar, esperava surpreender entre as doideiras engroladas o nome de Lili, Liliana, mas este nunca saía (embora o cabo do facão tivesse as iniciais de ambos, talvez ela estivesse muito mais esquecida do que supunha). Tarde da noite, oprimido pelos ruídos daquele peito e por aqueles gritos, em que parecia perseguido por hordas que lhe cobiçassem a alma, ele ia para a rua, exausto. Devia haver algum bar aberto, na madrugada.
Entrava, agora, pelos fundos da casa, abrindo-a pela porta da cozinha, esquivando-se ao ponto do corredor onde a mãe ficava, num sofá velho, em vigília mais propensa ao sobressalto que à atenção, tombando num sono que a vencia fugazmente. Ela não estava lá e ele queria, queria poder ficar livremente no quarto, olhando para o adormecido. Furtivo, pisou no território para o qual o pai nunca o convidava. A respiração entrecortada, ele se agitava, produzindo como que um murmúrio de um animal que nem a pancadas fosse apaziguado, os lençóis úmidos, manchados por coisas cuja procedência ele se recusava a imaginar. Só o relógio do corredor fazia algum ruído, e ele pensou na providência de levá-lo para a despensa nos fundos, mas, aos pés da cama, não tinha vontade alguma de se mover – era só uma espera.
Esperava o quê? Súbito, o pai se contorceu energicamente, esticou os braços, soltou um erro e os olhos ficaram abertos, extraordinariamente abertos. Apavorado, ainda achou forças para aproximar-se, para tocar-lhe na clavícula esquerda exposta por um rasgo na camisa do pijama, para sacudi-lo: “Pai, pai, pai!”, bradou. “Fala comigo, fala!”, sacudiu-o mais, como se pudesse, pela força, arrancá-lo das funduras de que aqueles olhos arregalados eram testemunha. “Fala comigo, fala!”
O pai não falava, mas via. Via o quê? Algo que só se encontrava ao alcance do poder daqueles olhos. Não adiantava ele pedir, rogar, querer. Desde sempre invisível, agora o era ainda mais.
Olhou-o, olhou-o por muito tempo, até que compreendeu que tinha que forçar aquelas pálpebras para baixo, velar o estupor. Teria o resto da vida para lembrá-lo, sem nunca chegar a entender.


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