(ANTONIO MANOEL DOS SANTOS SILVA, escritor e professor de Literatura, escreve sobre HÓSPEDES DO VENTO)
Gostei de ler o último livro de contos de Chico
Lopes, Hóspedes do Vento (São Paulo, Nankin,
2010). Não se trata de livro de estréia, pois o autor já havia publicado Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004).
Os títulos
dessas obras anteriores sugeriam coisas estranhas e perguntas sobre estranhas possibilidades:
seria possível haver nó de sombras? seria possível haver dobras na noite?
Aquelas, as sombras, seriam cordões ou
cordas e esta, a noite, seria um tipo de lenço, de lençol, de guardanapo, de
folha de papel? Com um pouquinho de imaginação sensível, nos daríamos conta de
que esses títulos mostravam que a realidades fugidias ou fluidas ganhavam
solidez e que a estranheza das relações adquiriam a proximidade palpável da
concretude.
O novo título também sugere coisas insólitas. Sugere,
por exemplo, a existência de seres humanos que buscam abrigo, descanso ou
repouso temporário em algo naturalmente instável; por isso mesmo sugere que
tais seres humanos estão ou se sentem, por algum motivo, perseguidos, cansados por
algum trabalho penoso ou inquietos por alguma angústia. Mas sugere também, por
sua simbologia (basta lembrar os clássicos, principalmente Horácio, e os poetas
barrocos), que somos, os humanos, seres que passam, que se limitam a uma
existência fugaz. Poderíamos transler o título assim: Hóspedes da Vida. Se
assim somos, então somos viajantes,
talvez turistas involuntários, que um dia
nos instalamos nessa casa, a vida, para noutro dia, em determinada hora,
sairmos dela. Pagando a conta antes, é claro. Essa conta é o x temático de todos os contos do livro.
Houve um
estudioso alemão – tinha que ser alemão – que, buscando facilitar o
entendimento das narrativas de ficção, propôs uma classificação delas em três categorias: de ação, de espaço e
de personagem. Em Hóspedes do Vento
não temos contos centrados na ação, embora se possa descobri-la, em todos eles;
também não temos contos centrados no espaço, embora as referências ao espaço
(paisagem, ambientes internos e externos) se encontrem de modo significativo. O
que temos são contos cujo foco é a personagem, isto é, a representação de seres
humanos cuja complexidade interior move as narrações. Se usássemos a idéia de
que o “vento” se identifica com a vida e que a vida é nossa casa provisória,
nossa hospedaria enfim, poderíamos dizer das personagens do livro, pelo menos
as principais, que estão prestes a fechar a conta e devem verificar as despesas
extras, a correção das diárias, os gastos involuntários, quiçá negociar descontos ou pechinchar o tempo de tolerância. Se não vejamos, a começar dos narradores.
Chico Lopes
prefere, em oito dos doze contos, que os narradores de suas histórias as narrem
como se fossem uma câmera que acompanhasse a personagem principal. O leitor,
quando se detém nesses contos, arrisca-se a confundir o narrador com o autor, o
próprio escritor Chico Lopes. Acho até que se trata de um estratagema que, no
caso deste livro, possui uma justificativa estética. Pois, se o universo humano
se caracteriza, na representação ficcional, por ambigüidades e estranhezas, nada mais coerente que não se
saiba distinguir bem entre narrador , uma invenção do autor, e escritor, que cria o narrador.
O narrador que
acompanha o personagem principal vê o mundo pelos olhos deste, ouve pelos
ouvidos deste, analisa e interpreta os outros com que este se relaciona, seguindo
a mente deste. De vez em quando a perspectiva se torna múltipla, como se
houvesse uma mudança de foco. Assim
sendo, a complexidade do mundo nos chega intermediada, mas também permite ao
narrador mostrar detalhes da realidade que envolve as personagens, desenhando-as ora com delicadeza e
compreensão compassiva,
ora com objetivo distanciamento,
ora com tonalidade irônica, ora com
pinceladas que deixam emergir o grotesco.
Uma
das notas relevantes nesses contos com narrador externo e que serve ao autor
para marcar o distanciamento, é o fato
de que poucos são os personagens principais com nome próprio. Esta ausência se verifica
em “O Assovio”, “O nome no ar”, “Perdendo Heitor”, “Dois no espelho”, “Certo
pássaro noturno”, de modo que a
identidade deles se percebe pelo que os lingüistas chamam de “não
pessoa” e que, nós, menos especializados, denominamos terceira pessoa (ele ou
ela). Esse distanciamento autoral adquire em “O caso dos pés” outra
configuração, pois o pobre herói, literalmente pobre, esconde o próprio nome,
substituindo-o por Wellington.
Essa ironia, que aliena as personagens de um
nome, observa-se com o nome de “Graça”,
a heroína que se percebe irreconhecível quando volta à cidade de sua infância e
juventude, em busca do antigo amante e ídolo, do qual foge quando está prestes
a encontrá-lo, por pressentir que ele também estaria irreconhecível. O final
antológico desta narrativa sobre a estranheza, sobre o desconhecimento de si e
dos outros, sobre o pavor diante de uma realidade que pode apagar a memória do
passado, desloca o nosso olhar (da mulher que corre até o elevador, descendo
por este) para o homem que vai abrir a porta do corredor sem encontrar quem
batera à porta. Cena cinematográfica em
que as imagens e os tempos se sobrepõem:
O
homem de que se lembrava não tinha nada a ver com os passos lentos
que percorriam, agora, o carpete, em busca
de quem batera à porta. Nada a ver com
o tipo fatigado e curvo que, desapontado com o vazio no corredor, na certa
perguntaria ao recepcionista dias depois
quando saísse (e se ainda saísse): -- A-
final , quem era ela? (p. 106)
A
pergunta vale igualmente para quem a formula ou formularia, e vale para
“Wellington” e para boa parte dos seres sem nome, o que não quer dizer sejam
personagens vazios. São seres complexos e intrigantes, atormentados por
sentimentos contrários, como o desejo e a repulsa, o amor e o ódio, as lembranças
do passado com as quais reavivam o presente às vezes com prazer perverso, às
vezes com penosa frustração. Desvia-se um pouco dessa tensão interna o errático
personagem do belíssimo
“Certo pássaro noturno”, que
lembra no tema um famoso conto de Machado (“Cantiga de Esponsais”) e, no modo de expressão,o andamento de Kafka.
Quanto aos demais textos com
narrador em terceira pessoa que segue o personagem central, vale a pena que se
leiam “Hóspedes do vento”, que dá título ao livro, e “A recusa”. Cada um
desenvolve de maneira distinta e até simetricamente opositiva, o motivo do
outro ou do duplo; aquele deixa entrever, nos atos e pensamentos de seus
personagens errantes, a transformação interior que se opera durante a
peregrinação cheia de sofrimento, de modo que um (Mário) alcança o objetivo que
parecia fantasia no outro (Neno); este, “A recusa”, contrasta
o conflito entre um homem maduro, mais inseguro, que
sente o avanço dos anos e a iminência da morte, apesar do apelo da vida, representada por uma jovem “inexperiente”, e
outro, impulsivo, que, ao abordar a esta, vai “acrescentar um nome à sua lista
de pássaros abatidos” (p. 91).
Como
referi mais atrás, esse modo de narrar grudado nas personagens (não com a voz
dos mesmos), possibilita referências
tanto à paisagem física quanto ao mundo social. Então, nesses momentos fica bem
nítida aquela qualidade artística, ou, se quiserem, aquela força poética, que perpassa sutilmente por toda a escrita de
Chico Lopes. Como diria Mário de Andrade, nesses momentos fica muito claro que
Chico Lopes não só escreve bem – o que é dever de todo escritor – mas escreve
“milhor”, o que caracteriza todo artista genuíno.
Uma
das tentações da escrita “milhor”, ou poética,
consiste em fazer da escritura uma realidade tão espessa, que se torna
incomunicável. Se essa espessura da linguagem se verifica em narrativas, estas
acabam por fugir de sua natureza que é “narrar”. Neste livro, a espessura da floresta não esconde as
árvores, nem se torna indevassável; pelo contrário, existe em função da
história que se conta. Veja-se, por exemplo, este trecho que prepara o final do
“Hóspedes do vento”, quando o personagem Mário, já se sentindo o outro, Neno,
percebe ter atingido o objetivo de sua busca sofrida, na realidade a busca que
o outro punha no horizonte futuro:
Ao
entardecer, o barulho, chilreios, chamados, a agitação preta nas folhas, fez
com que se
erguesse. Tinham chegado, os chupins, dezenas, e outros iam se aproximando, se
enfiando entre os verdes, ao fundo um céu entre rosa, cinza e alaran-
jado com uma
sucessão revoante de pontinhos pretos. Ergueu-se, abriu os braços, não
sabendo como
saudá-los senão assim, camisa aberta, arreganhado, ele Neno, ele total,
a mangueira
repleta. Partiu rumo à casa, ao quintal, com as mãos em concha, capaz de
adivinhá-los, formá-los, mas, no caminho, os joelhos se dobraram. (p. 42)
A cena me remete ao
impressionismo, algo de Seurat, algo de Monet, do mesmo modo que a descrição abaixo
me fez lembrar, durante a leitura, as representações do grotesco:
(...) pareciam curvar-se às barrigas de cerveja e massas como quem se curva
para tom-
bar
nas covas iminentes; pesados, em todos os sentidos, entregues àquelas
conversas,
ao
jogo de baralho nas muretas em torno do parque, olhando uns para os outros com
um
fastio indescritível, catando mosquitos; com ares contritos, como que em perpétua
prisão de ventre, andando lerdos
como se um tédio os pregasse ao chão e tornasse seus
movimentos
difíceis – e eram as bermudas largas, aquelas pernas brancas, brancas, com suas raias azuis de varizes, as calvas brilhantes com fios
de cabelo grisalho a voe-
jar,por vezes
dedos indicadores enfiados na boca, em busca de restinhos da comida
opulenta dos
restaurantes...(p. 72-3)
O trecho satírico mostra um dos
pendores expressivos dos contos em terceira pessoa, quando o narrador se volta para o ambiente urbano das
cidades do interior em que os habitantes, deslumbrados com as metrópoles que
vêem pela televisão, desfazem-se do espaço que lhes garante o pertencimento e a
identidade em detrimento de simulacros do progresso. Essa descaracterização se
harmoniza com a desintegração das personalidades, as divisões do eu, os
sujeitos duplos ou especulares. Fato que se verifica também nos contos em que
os próprios personagens narram sua própria história: “A mulher do cantor”, “O
quarto da atriz”, “Estrela de junho” e “Episódio de caça”, este último um dos
mais perfeitos contos que conheço sobre a estranheza e a busca dramática –
inútil, por certo – da identidade.
Não posso omitir, no fim desta
“Primeira Impressão”, que o livro de Chico Lopes apresenta alguns símbolos e
mitos dignos de estudo mais aprofundado. Dentre os símbolos, o da árvore
primordial e o dos pássaros; dentre os mitos, o do paraíso perdido e o da
revelação. Arriscaria dizer que há nos contos algumas situação
mítico-simbólicas que, tratadas invertidamente, nos fazem perceber narrações
anti-epifânicas. Mas isso já é assunto de tese e não de um artigo como este.
Antonio Manoel dos Santos Silva
(São Paulo, 28 DE ABRIL DE 2011)
HÓSPEDES DO VENTO TRAZ TREZE CONTOS
O assovio
O nome no ar
Perdendo Heitor
A mulher do cantor
O quarto da atriz
Hóspedes do vento
Episódio de caça
Dois no espelho
O caso dos pés
A recusa
A terceira porta
Estrela de junho
Certo pássaro noturno
Capa e miolo: do Antonio Amaral Rocha
Orelha: Texto de Valentim Faccioli

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