Até 2000, tudo que eu fiz foi escrever, fosse profissionalmente para os jornais, ou fosse para mim mesmo (a literatura). Vivi na condição de "escritor de gaveta" por toda uma vida. Tinha 48 anos quando estreei com o livro de contos NÓ DE SOMBRAS, publicado pelo IMS/SP/Poços, com prefácio e quarta capa de Ignácio de Loyola Brandão, amigo que fiz por cartas ainda nos anos 1970.
Meu período de maior atividade como poeta, prosador (contos e novelas) foi nos anos 1980. Escrevi muita coisa então, morando em Novo Horizonte, SP, e depois essas coisas foram revistas, rasgadas, eliminadas ou aperfeiçoadas em Poços de Caldas, MG. Acredito muito em reescrever. Sempre é possível melhorar o que parece bom, procurar o ótimo e talvez até o além-do-ótimo.
NÓ DE SOMBRAS traz dez contos
Parque dos cães
O quarto e a rua
Um corpo no rio
Do outro lado
Nos fundos
Uma das mil noites
A gaveta
O clarão
A frestaO recado
Abaixo, o prefácio de Ignácio de Loyola Brandão:
"No momento em que todo mundo quer escrever tramas policiais e imitar o Rubem Fonseca, porque Rubem é a bola da vez entre os críticos, num momento em que todos querem saber qual é a tendência para se inserir nela e fazer sucesso e entrar para as medíocres listas dos mais vendidos, repletas de auto-ajuda e baboseiras de consumo fácil, deparo com um escritor quieto em seu canto, imune aos incensamentos, escrevendo o que acha que deve escrever, fazendo a própria tendência, segundo a inspiração, que nele é farta.
Chico Lopes é um original. Um homem que sabe da necessidade da mídia hoje em dia (ele é também jornalista e um apaixonado por cinema), mas não corre atrás como sabujo para agradá-la. Tem o seu caminho e acredita nele. Uma raridade. Há nestes contos sinceridade, honestidade, tema, rigor, personalidade. Tantos adjetivos, num país que os gasta insensatamente. Há um cheiro de terra, de Brasil, de coisas nossas, de temas aparentemente simples, ainda que cheios de perplexidades, de gestos cotidianos, de dramas anônimos, há ironia e sarcasmo sutil ao lançar os olhos sobre a vida em família (essa hipocrisia), o viver em sociedade (esse tormento, por causa das normas intolerantes), o amor, o sexo, os desejos, os sonhos, a violência contida em todos nós. Quantas vezes tivemos um livro com um título tão sugestivo quanto este: NÓ DE SOMBRAS? O cuidado de Chico Lopes (ele é simples e complexo até no nome) começa no título e perpassa em cada linha de contos como "A fresta" ou "Uma das mil noites", "A gaveta", "Parque dos cães". Não, não vou repetir o índice, apenas declarei alguns pela ordem em que mais me emocionaram. Porque literatura é isso, emoção e incômodo. Se não, para que escrever? Para as pessoas rirem um pouco e abandonarem o livro no banco da rodoviária, ou no salão do aeroporto? Não, Chico veio para mexer com a gente com histórias que parecem roteiros de cinema. Nos reconhecemos em suas histórias e não vamos esquecê-las. Mas, para que ficar lendo prefácio? Quanto mais escrevo, mais vocês vão demorar para ler o Chico. Pulem estas linhas e caiam dentro de seus contos. Eu quero terminar, para ler de novo. Juro, são poucos os livros que têm me levado à leitura e imediata releitura. Este é um."


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