sábado, 11 de julho de 2015

DE RILKE, "OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE"



"Quando se fala no solitário, sempre se pressupõe coisas demais. Pensamos que as pessoas sabem do que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um solitário, apenas o odeiam sem o conhecer. Foram seus vizinhos que o desgastaram, foram as vozes no quarto ao lado que o tentaram. Incitaram contra ele os objetos, para que, fazendo barulho, superassem sua voz. As crianças se aliavam contra ele, porque era delicado, era uma criança também, e, crescendo, crescia contra os adultos. Encaravam-no em seu esconderijo como a um animal de caça, e não teve tréguas em sua prolongada juventude. Quando não se deixava derrubar pelo cansaço, e escapava, gritava por causa daquilo que emanava dele, dizendo que era repulsivo e suspeito. E, se não lhes desse ouvidos, tornavam-se mais explícitos, comiam seu alimento, respiravam seu ar, cuspiam na sua comida para que a achasse repugnante. Difamavam-no, como se sofresse de alguma doença contagiosa, jogavam-lhe pedras para que se afastasse mais depressa. E no seu instinto ancestral tinham razão: pois ele era realmente seu inimigo"

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