Sou (mais ou menos) conhecido como escritor desde 2000, quando publiquei (aos 48 anos) meu primeiro livro de contos, "Nó de sombras". Mas na minha terra natal, Novo Horizonte (SP) sempre fui melhor conhecido como pintor, embora escrevesse bastante nos jornais de lá.
Sou autodidata no assunto, e tudo que aprendi, aprendi vendo outros amigos pintores, trocando ideias aqui e ali, consumindo com voracidade livros de arte e aperfeiçoando meus quadros na penúria, porque houve longas temporadas em que não tinha dinheiro para pincéis, telas e tintas. Mas aí eu desenhava. E em 1977 comecei a desenhar em pequenos cadernos comuns com canetas Bic (azul, verde, vermelha, preta) e isso virou uma mania pública, porque eu gostava de desenhar nos bares e lanchonetes da pequena vida noturna de Novo Horizonte. Nada mais barato que caderno de desenho e umas canetas Bic. Desenhava panoramas noturnos em que figuras andróginas (remetendo a meninos, no entanto) vagavam por noites e bares e paisagens desoladas, de um onirismo melancólico. Eram desenhos, na verdade, bem angustiantes (vivia anos de grande angústia) e nada comerciais, mas atraíam olhares por causa da técnica, da "magia" de fazê-los apenas com canetas comuns. Aquilo foi tão persistente que me valeu o apelido de "Chico do Caderninho". No ano de 1978, um amigo de Curitiba, Francisco Souto Neto, impressionado com os desenhos, montou uma mostra de 60 deles na Fundação Cultural da praça Garibaldi. E um desses desenhos foi até utilizado na capa de um livro de uma escritora catarinense amiga, Inês Mafra.
Em todo caso, descobri o que teria que descobrir: que aqueles desenhos, muito precários, se apagavam quando expostos à claridade (mesmo emoldurados, cobertos por vidro).E voltei às telas, que nunca tinha deixado. E segui pintando quando era possível, vendendo meus óleos a um preço muito "de ocasião" porque, afinal, eu precisava pagar minhas contas de cigarro, lanches e bebidas nos botecos.
A Literatura me roubou toda essa dedicação à pintura, o que não lamento, porque não saberia viver sem escrever. Mas tampouco sei viver sem pintar, e volta e meia, eis-me comprando telas virgens, preparando fundos, limpando pincéis e indo para cá e para lá à procura de tubos de tinta a óleo. Creio que as mesmas figuras humanas sofridas que apareciam em meus desenhos comparecem hoje, mas já mais estilizadas, em meus óleos. Continuo vendendo-os, mas não regularmente: de vez em quando, algum amigo ou conhecido manifesta interesse (isso aconteceu-me recentemente, pela internet) por algum trabalho e, mediante um acordo sem maiores grilos, a venda se efetua. Mas é comum que eu sinta a perda de meus quadros e volte a fazê-los, aprimorando versões originais em três ou quatro versões novas.
Para compensar o pouco tempo de que disponho para pintar hoje em dia, posto frequentemente quadros que me despertam admiração ou algum interesse técnico no facebook.
Talvez vá erguendo aqui, neste meu blog, uma galeria, mas será aleatória, porque me restam poucos quadros recentes num acervo fotográfico e há uma verdadeira centena deles que foi vendida e anda pelo mundo com proprietários que eu nem sempre teria como localizar. Em todo caso, os proprietários que queiram colaborar podem fotografar os quadros (ou mesmo os desenhos) meus que por acaso tiverem em suas paredes, que ficarei grato.

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