domingo, 26 de julho de 2015

O MANCO: CONTO DE MEU LIVRO "DOBRAS DA NOITE"

















O MANCO



(Para Toninho Pereira, pelo bar da Rua Rio de Janeiro)



Quando viu o homem dobrando a esquina, afundou-se à mesa do barzinho, posta numa calçada pela qual, inevitável, ele passaria. Não estava muito longe, mas andava devagar, conduzindo penosamente a perna direita, sem olhar para nada ou ninguém, cabisbaixo, ponta de cigarro na boca. Tremeu: ali, na mesa, seria visto, e ele se aproximava; levantou-se, recuou para dentro do bar, simulou interesse por alguma coisa lá no fundo para ficar de costas para a rua. Estático, esperando que a ameaça passasse, ouviu atrás de si uns passinhos difíceis e aspirou o cheiro – mistura de colônia fora de moda e desinfetante de roupa – de alguém que entrava. A voz, pedindo cerveja. Ele.

Havia a esperança de não ser reconhecido; tinha virado o rosto para a parede, para um cartaz anunciando um refrigerante em verdes, laranjas e carmins. Mas sabia, sentia-se olhado. “Oi, Dida”, ele disse, baixinho.

Não respondeu. Ele não se importou, pondo a mão direita sobre seu ombro com indulgência, com confiança. Morava havia dez, onze anos nessa nova cidade e ninguém conhecia esse seu apelido; só por tê-lo usado, indiferente a todos os esforços que ele fizera para mudar, o seu velho conhecido era odioso. Mas, tinha de resignar-se; com um repuxo, conseguiu livrar-se da mão afetuosa e fitou-o bem nos olhos, hostil, à espera. “Vamos sentar?” – o homem apontou a mesa que ele deixara vazia na calçada. Seguiu-o. Vê-lo mancar dava-lhe um arrepio estranho, uma vontade de imitá-lo, de mancar também, a que tinha que se opor com toda força.


Em B., ele tinha sido aquilo – o grande, o insuperável Edgar Valdez dos programas de rádio. O que era a voz? A benção, a delícia, os tremores de sua mãe junto ao rádio, que ficava sobre a cristaleira, ao lado de um bibelô de noivinhos. E era, além da voz anunciando boleros e sambas-canções, o homem que descia a Rua 10 e de lá da calçada, sob o tamarindeiro, mandava beijinhos para a janela onde ela não ousava aparecer. Lembrava-se da mãe perguntando se o vira na cidade, em algum dos bares, quando chegava da escola; Dona Dinalva era tímida, respeitosa, mas amiudava as idas à janela, ansiosa pela aparição sob o tamarindeiro. Ele era um menino, tinha medo, não saberia protegê-la, expulsá-lo, como parecia ser o certo, mas, como fazê-lo, se ela suspirava pelo sujeito? 

Bom, tanto tempo passado, eis Edgar Valdez. Mudado, bem mudado. Não conversavam, o homem bebericava a cerveja e permitia os olhares com os quais ele se assenhoreava das mudanças e lia impudicamente o que quisesse. Estava bem mais velho, onde os cabelos e a barba negra célebres por fazerem contraste com os olhos verdes de grande eficácia? Grisalho, meio calvo, a barba rala, pontinhos brancos emergindo do rosto liso como sinais de falta de asseio, feito fosse um descuidado recém-saído de presídio ou hospital; uma prótese dentária em mau estado; nas costas das mãos, certas manchas previsíveis para esses talvez 60 anos; o cansaço consumado de uma vida de venenos estava ali, inequívoco; segurava o copo com insegurança e parecia lento, muito lento, embora indiferente – e talvez superior – ao que de pior ele pudesse pensar. Esses sinais de decadência só não o deixaram completamente feliz porque a beleza dele resistia.

Havia a perna. Não conseguia deixar de olhá-la e tinha que esforçar-se para ele não notar essa avidez pelo defeito, que lhe parecia surpreendente – não chegara a achá-lo invulnerável, nos velhos tempos? Os olhos iam para aquele ponto contra a sua vontade. Usava um jeans velho, barras puídas, os sapatos rotos (hipnotizava-o o detalhe de um deles estar sem cordão). Fora um homem que se vestia ousadamente bem para os padrões tímidos e apagados de B., naqueles anos; agora, estava com roupa dos outros, sob uma camiseta azul claro onde se lia “Leo” e se via um leão de astrologia estilizado na estampa. Mas, ardia pela perna sob o jeans, e, embora excitado, não podia, não devia perguntar. “Bebe, Dida”, ele pediu, a voz débil, empurrando-lhe uma nova cerveja que chegava. “Não bebo mais. Nem fumo...”, respondeu.

- Você se casou, né? Tem um filho...

- Sim. Como veio parar aqui? – disparou. A pergunta era cheia de apreensão e hostilidade, de tal modo que o outro suspirou, recuando um pouco. Pensou bastante para responder que não tinha rumo, que “viajava”, desviando sua atenção para a rua de pouco trânsito e apontando um casarão verde-escuro mais para baixo, do outro lado; ele olhou para a placa e leu “dormitório Santa Catarina”. “Estou ali”, disse, fatigado. “Pardieiro”, ele pensou. Era um lugar por cuja calçada passava de vez em quando, enjoando-se com os cheiros misturados de comida e mijo.

Não queria simplesmente que esse homem estivesse ali, numa cidade que era outra e sua, agora. Há algo de detestável nisso de não se poder controlar entradas e saídas indesejáveis num lugar onde moramos com a certeza de residência fixa, abençoada, reconhecida, imunes a um passado que ficaria melhor decididamente esquecido. Temia falar da família, temia sentir compaixão, dar endereço e ele lhe aparecer para um almoço, fazer observações imprevisíveis sobre coisas que Edith não tinha que saber. Pensando nela, levantou-se e, sem pedir licença ao homem, foi a um orelhão próximo. Não tinha nada para dizer – era um feriado e fora ao centro da cidade apenas para comprar jornal, passear um pouco, mas a voz dela lhe daria uma forma de familiaridade, de segurança, lhe devolvendo contornos firmes. Falaram-se. Ao voltar, Valdez já se levantava e ia para o balcão devagar – aquela perna, aquela perna! -, mexendo no bolso para pagar a conta. Chegou antes, abriu a carteira – que ele visse que tinha dinheiro, que era bem capaz de ganhá-lo, e bastante – e pagou-a, sob um protesto muito débil do homem. Pediu um maço de cigarros também. Lembrava-se da marca, hoje com filtro. Ele aceitou, resignado.


Passeavam juntos. Desde a morte do pai, ela o queria a seu lado na rua, protegendo-a dos olhares, dos cicios. Mas era inevitável, desde que a voz no rádio a atingira, que passasse por certo bar, precisamente aquele que evitava por ter homens demais, sempre, à porta. Valdez às vezes estava no meio deles. Era uma espécie de mercearia e o cheiro de cachaça misturava-se ao de sardinhas em salmoura expostas em grandes latas nas prateleiras que davam para a rua. O homem cruzava as pernas, o cigarro na boca, o copo na mão, e outros olhares masculinos acompanhavam, interessados, gozadores, seu rito de oferecimento irônico à mulher que passava. Quanto a ele, cabia-lhe apenas revoltar-se pela disponibilidade dela e segui-la, vacilante, medindo-se até onde podia com a figura de macho consumado que se postava lá, exibindo-se. Naturalmente, saía inferiorizado da comparação e a pegava pelo braço com mais energia, lá na frente. “Que foi, Dida? Me machuca, assim!”; “A senhora não tinha que se humilhar desse jeito”; “Não estou fazendo nada” – parava para cutucar uma pedra do calçamento com a sombrinha amarelo-ouro e ficava pensando, para depois dizer: “Olha, eu sei que ele é muito moça pra mim, sei que está errado, mas não vou sair da linha, compreende? Não vou trair a memória do Lindolfo...”

Que é que se sabia de Valdez? Por uns tempos andara sendo visto pelos lados da represa com uma mulher casada e rica que, escândalo, mas nem tanto, traía o marido com quantos – desde que bonitões – aparecessem; apresentava-se com orquestras e conjuntos cantando o que se pedia nos dois clubes da cidade e em casas de senhoras finas, nas quais era sabido que ensinava violão; usava camisas entreabertas para o peito de muitos pêlos e a barba provocadora numa época em que nenhum homem se permitia dessas coisas; de conversa fácil, tanto ficava ali, entre os tipos cruéis, desleixados e grosseiros do bar-mercearia quanto era visto em lugares de certo luxo, circulando entre mulheres dadas à Pintura e à Música e alguns pretensiosos da Academia Lítero-Musical, onde se recitava Bandeira e se cantava Maysa. Bom para pegar canções novas, quaisquer que fossem, rapidamente, hábil nos arranhões do Espanhol e do Inglês, o violão dócil, o olhar verde entregando-se, difuso, a todos que prestassem atenção àquela voz tão insinuante que já nem era um pedido, mas uma violação consentida, conforme quem a ouvisse. Tempos depois, soube-se que até uma mulher de virtudes indiscutíveis e líder de associação católica vacilara numa aula de violão com ele.

Não era verdade, garantia. “Nem essa nem outras histórias, garoto”, dizia, olhando para Dida sem nem mesmo cogitar de parecer convincente, já com um lugar cativo no sofá vermelhão da sala de estar, servido de limonada e muito aplicado em buscar, no braço do instrumento, umas notas que dariam início àquilo que Dona Dinalva lhe acabara de pedir: “Cansado de tanto amar/eu quis um dia criar/na minha imaginação...” E a “mulher diferente/de olhar e voz envolvente” lhe servia mais limonada.

Não tinha vindo de cidade alguma da vizinhança, que se soubesse. Numa certa tarde, aparecera com a mala pequena na pensão da Iracy Pedreira. Arrancou-se da mulher que tinha nascido numa metrópole, segundo um documento; isso explicaria alguns modos, achava-se em geral que os que vinham de lá tinham mais desenvoltura, menos amor às convenções e uma lábia a ser temida. Dava “cantor” como profissão. Tinha havido um parente seu na cidade, que lhe falara do lugar. Achara muito belas e particularmente originais as mangueiras na praça, “sombras espetaculares, nunca vi nada tão bonito assim, no interior”. Iracy o dizia bom pagador. Outros bares esperavam, para as muitas cervejas e cachaças tomadas, um acerto que tardava.

Do alto da escada, luz apagada, Dida se retirava para que ficassem conversando à vontade lá embaixo, mas estava livre para olhá-los, e vigiava-os. A mãe permanecia imóvel, receosa, embevecida, no seu sofá, enquanto ele cantava “dei-lhe a voz de Dulcinéia/ a malícia de Frinéia e a pureza de Maria” ou parava para dizer coisas que, infelizmente, não era possível ouvir dali. Gostava que a mãe balançasse a cabeça, incrédula, ou reagisse como uma mulher decente que, Deus, outra coisa não era. Ordenava: “Mãe, agora a senhora se levanta, se afasta, faz de conta que não ouviu nada, nada de perder a pose”, ordenava, crendo guiá-la infalivelmente com o seu pensamento. Ela fazia exatamente isso, para seu alívio. E, se Valdez insistisse no que fosse de insinuante que dizia lá, baixando a voz para praticar a sucção de caçador, ela erguia o indicador para a direção no alto onde ele se encontrava, lembrando, muito sensata, que tinha, afinal, um filho e que este a vigiava. Valdez olhava para a direção apontada, batia continência e ria, tranqüilo, para ele. “Uma disputa entre nós dois, garoto? Veremos quem vencerá...”

Lindolfo fora um homem calmo, dedicado ao trabalho na Prefeitura, um contador cujo rigor com números e excessivo amor aos horários eram respeitados e escarnecidos. Em casa, era dado a algumas estranhezas culinárias, para o gosto estritamente trivial da mulher e dos parentes, e à criação de pássaros. Nada indicava que morreria tão cedo, com um filho ainda nos sete anos. Dida lembrava-se do dia, da correria inexplicável, das conversas ao muro, dos parentes atabalhoados, da mãe desmaiada no quarto, cercada por mulheres que se revezavam trazendo copos de água com açúcar e calmantes. O pai saíra sem explicar para onde e voltava pela rua em declive quando caíra, um pacote de alpiste se arrebentando e espalhando a semente pelo asfalto; um caminhão tinha freado muito perto de seu corpo e o motorista mal acreditava estivera para atropelar o “Seu Macedo dos canários”. Lembrava-se de um aposento vasto cheio de gente, a mistura de choro, rezas, o corpo excessivamente coberto de flores no caixão, os pássaros piando desenfreados nas gaiolas da varanda próxima. Dona Dinalva, dizia-se, estava meio “variada”, mas vestira-se bem, perfumara-se; a cor do batom parecia-lhe estranha, um roxo vibrante que ela nunca usara.

No quarto conjugal, Dona Dinalva decidira conservar as suas coisas – quadros com vistas da cidade, o inevitável poema de Kipling, uma estante com alguns poucos títulos policiais misturados a enciclopédias populares e livros católicos e Seleções do Reader´s Digest. Havia uma gaveta para velhas roupas – calças, ceroulas, gravatas, caixas de lenços e, num canto, um maço vazio de Fulgor. Sobre o guarda-roupa, uma grande caixa redonda guardava um imaculado chapéu Cury cinzento. Numa fotografia sobre a cômoda, ele apontava, com um sorriso apagado, entre os amigos de um timinho de futebol; o calção lhe ficara muito comprido, era magro demais para o uniforme, mas o bigode era cuidado, o cabelo preto de um crespo romântico, as sobrancelhas fartas, os olhos vivos, e tinha uma segurança máscula que explicava a veneração da mãe. Ficaria alto como ele? Teria um bigode tão bem desenhado? Os pêlos do rosto lhe tardavam e ele achava inaceitável essa pele, esse corpo tão liso, tão branco, angélico, que às vezes a mãe avaliava de esguelha, com dúvidas.

Era tirar os olhos da fotografia sobre a cômoda e olhar pela janela, afastando a janela, para vê-lo, Valdez, conversando com a mãe ao portão ou, vez que outra, misturando-se aos moleques do quarteirão para chutar bola, empinar papagaio, solto, gozador. Sem sentir-se vigiada pelo filho, ela o olhava, enternecida, incrédula – seu marmanjo adorado, na verdade um menino. Surpreendia-os perto do córrego que ficava no fim do quarteirão, saindo aos risos de um trecho de mato, e pior: tinha que suportar, quando ele se ausentava, a inquietação que ela tentava disfarçar, mas não conseguia: ia demais à janela, consumia muitos cigarros, ligava e desligava o rádio ininterruptamente, perdia por completo o sono e vagava pela casa. Sua sombra lépida passava-lhe pela fresta da porta do quarto, alongava-se no corredor, era tragada pela curva da escada para a sala, roçava nos móveis, precipitava-se na varanda da frente com um suspiro vago e esvaía-se por dias, às vezes por semana, numa espera sobressaltada e infrutífera. A casa ficava desarrumada, e ele desanimava em apanhar a vassoura, mas se ocupava um pouco da louça, observava com apreensão as inúmeras saídas da mãe, para invariavelmente passar pelo bar-mercearia, onde ele podia imaginar o que aqueles freqüentadores diziam dessa busca entre dentes palitados.

“Vira essa fotografia para lá, por favor”, ela pedia, apontando a cômoda, ao conversar com ele no quarto, sentando e levantando-se da cama – nada de importante, trivialidades nervosas com que procurava distrair-se do pensamento único. Ele não a obedecia – que outro protesto tinha a oferecer além de seu silêncio e do silêncio de seu pai? Mas, não adiantava: saberia que Valdez tinha voltado quando, subitamente, ela punha roupa nova e improvisava cosméticos desconhecidos de sua inescrutável penteadeira e agitava-se pela casa cantarolando – “meu amor/quando me beija/vejo o mundo revirar” -, falando sozinha, num contentamento que mais parecia uma crise de exasperação, de alívio maníaco. Tempos depois, era obrigado a notar que até o dinheiro da casa – o que lhes vinha da pensão de Lindolfo – escasseava. E que ela chegava tarde, em meio a risos e conversas, em carros cujos donos ele não se atrevia a saber quais, sem coragem para abrir a janela.

Tempo de obscuridades, de cicios, de gente passando disfarçada, gestos pela metade, conversas aos pedaços, risadas, gritinhos de imperdoável vulgaridade, e ele quase não via Valdez – parecia apenas saber de sua existência, infalível, porque ela era quem, com seus gestos felizes, lhe dava silenciosamente a notícia: o seu inimigo gozava de ótima saúde. Dera com ele, inesperadamente, numa noite em que voltava sozinho do cinema, e pararam para medir-se, francamente. Ele mostrou-se tranqüilo, dizendo um “Buenas noches, garoto”, que lhe soara para lá de odioso. Mãos nos bolsos, tinha o corpo projetado e satisfeito de uma maneira deliberadamente ofensiva; deixava claro que a disputa prosseguia e “bem, azar o seu, querido, pois está perdendo, perdendo feio...” Aquela voz, aquela pose, aquela satisfação pareciam-lhe letais porque pareciam a voz, a pose e a satisfação de toda uma humanidade masculina sobre a qual a mãe não soubera se impor, da qual não pudera – por seduzida – esquivar-se. Essa horda tinha razão porque vencera, já que não concebia outra razão além daquelas fornecidas pela vitória, não importando quais houvessem sido os meios. A covardia era horrível e ele tinha de segui-la, ser contagiado – se não o fosse, não pertenceria a seu sexo, seria anátema, exílio, abismo. Só podia dar-se por derrotado, mas era momentâneo – pois nunca o perdoariam se ele não lutasse mais, se ele não se mostrasse um igual e utilizasse aquelas armas que a idade e sua natureza tímida não lhe podiam dar.

Numa noite, ao chegar em casa e abrir a porta da sala, viu-o no escuro, rumando para o banheiro. Depois, ao voltar, abotoando a calça, ele viu-o parado à porta e não pareceu nem um pouco surpreso; sem camisa, muito à vontade, subiu a escada, indo para o quarto de Dona Dinalva. Subiu atrás dele, pisando forte, para parecer corajoso e indignado, contendo a fúria, e Valdez não olhou para trás uma só vez, mas ele sentia que ia rindo, como se a boca debochada lhe fosse transparente através da nuca que ia olhando fixo, os passos que ia contando. Entrou no quarto da mãe, deixando a porta entreaberta para lhe patentear o seu desprezo e domínio. Sabia que ele, o menor, o inepto, o “garoto”, veria o que viu, ele despindo as calças, ela à espera. Antes que alguma coisa começasse, ela fez um gesto, apontando para o alto. Ele entendeu e baixou a grande caixa redonda, abriu-a e pôs o chapéu de Lindolfo, o que ela aprovou, com palmas. Enquanto fazia o que se pusera a fazer e ele lhe segurava a cabeça junto à cintura, olhava para a porta onde ele sabia que ele tremia de raiva e sorria largo – mais do que tudo era a sofreguidão, a servidão, a avacalhação da mãe o que queria que o filho testemunhasse.

Pensão da Iracy. Fora procurá-lo lá, numa noite de uma ausência de muitos meses, quando a mãe lhe rogara que o fizesse, não podendo sair da cama, fraca demais, dores nos pés que a impediam de andar. Ele não estava, mas insistira com Iracy e a mulher lhe mostrara o quarto – era esse, então, o esconderijo, ali o violão, roupas jogadas, meias num canto e num outro pares de sapatos, revistas, livros, o cheiro inevitável de um nicho masculino desleixado, caverna, acampamento. “Ele sai muito, sabe? Viaja, vive por aí. Mas volta, é claro. Às vezes alta madrugada, sei lá a hora. Confio, deixo a chave. De vez em quando, traz uns amigos. Não fazem algazarra não...” – disse Iracy; parecia se divertir com alguma lembrança que reservava só para si – “Meio sem juízo, esse Clóvis...” “Que é...Clóvis?”. “É, é o nome dele, nos documentos, que eu vi, ora. Edgar Valdez, você não achava que era o nome verdadeiro não, né? Isto é coisa de artista de circo, picareta metido a argentino. Clóvis, prefiro este. Enfim, não é problema meu...” A todo momento o nome de Dona Dinalva pairava, estava a nadinha de ser pronunciado; Iracy sabia – como todos sabiam – e talvez até estivesse contente que ele voltasse para casa sem saber o paradeiro dele, sem ter o que contar para a mãe.

Não o viram mais. Boatos davam-no como cantor de boleros num circo da cidade mais importante da região, de que B. era só um dos apêndices; fora visto na capital, mas deslizara em fuga ao topar com um dos credores que deixara na cidade; em N., aparecera na rádio e fora visto cantando num conjunto de rock iniciante, o cabelo crescido; a barba negra incomum e os olhos verdes foram idolatrados por mais alguém em D.; misturado aos ciganos em V.; alguém que imitava Trini Lopez muito bem talvez fosse ele, mas o pseudônimo era Edgar Ramirez, num programa de rádio de um outro estado. Difuso, imprevisível, tudo era provável e tudo se esfumava.

Dida olhava para Dona Dinalva que olhava pela janela, incomodava-se com o fato de partilhar com a mãe esse olhar de espera, de suspiro, de mágoa, desviava o seu, mas não podia resistir, voltava a olhá-la, a vê-la forçando os olhos na esperança de que uma presença dobrasse a esquina e se definisse. Ela se resignava com a falta de resultados, mas nada mais fazia, recusando-se até a comer. Não tinha o que dizer e ele nada perguntava. Por vezes, se os pés estivessem latejando menos, saía. Ele sabia o que ela fazia: percorria uma por uma, obcecada em manter o mesmíssimo caminho, as ruas que levavam ao bar-mercearia. O alheamento a poupava de ouvir o que se dizia à sua passagem. Era só dele a missão de saber, de assimilar a vergonha. E de espanar e manter em pé, sobre a cômoda, a fotografia do pai.

Por que o seguia? – podia muito bem tê-lo abandonado lá atrás, no bar, ter-se contentado com a humilhação de lhe comprar os cigarros. Mas ele se aprumara quanto pudera, com aquela perna que devia – oh, maravilha! – doer muito, e se pusera à frente como se soubesse que seria inevitavelmente seguido. Iam para o dormitório. Orgulhoso de resistir a remedar, de poder contar com o uso sadio e integral das suas pernas, caminhava devagar, satisfeito, logo atrás, pisando com força como se para tentar chamar a atenção de Valdez para a sua superioridade. Mas o homem não o olhava.

Oh, esses lugares! – chamem-se as proprietárias Iracy ou Dorotéia ou Rosa, chamem-se eles Santa Catarina, Nossa Senhora Aparecida, São Jorge, Santo Antônio, são sempre isso, esses rostos que olham hostis, malévolos, com uma curiosidade estúpida, essas figuras que ficarão por pouco tempo e por isso, longe de casa e de interdições, podem estar dispostas a muita coisa clandestina, esses corredores, esses banheiros, essas pias, essas cozinhas com mulheres obtusas à beira de panelas prestando atenção aos que chegam ou xingando por algum motivo, esses “passos-pretos” piando em algum canto, esses gatos cujas caras curiosas e logo fugitivas emergem de alguma parte, esses olhares, esses olhares...

Valdez já era bem conhecido ali, cumprimentava algumas pessoas, com um sorriso meio dolorido. Mesmo mancando, tinha um porte, não deixara de ser um homem para quem uma mulher olharia e que outro homem avaliaria com respeito. De tanto observar-lhe a perna e deleitar-se, começou a sentir-se mal consigo mesmo – a satisfação, ao prolongar-se, era nauseante. Começou a olhar para o homem tentando não julgá-lo, tentando esquecer-se da mãe, e estava cabisbaixo, contrito, quando entrou em seu quarto. Por mais que esperasse que, entre dentes, num deboche, ele lhe o chamasse de “garoto”, o seu silêncio era obstinado e digno. Ele fechou a porta e lhe pediu, com um gesto vago, que se sentasse na cama, não havia cadeira. Parecia apreensivo. Postou-se à janela, que dava para nada além de um monte alto de lenha.

- Como é tua mulher? – perguntou, inesperadamente.

Ele não sabia o que responder e surpreendeu-se trêmulo, assustado, como se, respondendo, fosse abrir um flanco pelo qual abominações poderiam entrar.

- ...e o teu filho...o menino?

Continuou mudo. Não sabia o que fazer com as mãos e com a cara, que devia estar deixando patente o nojo que sentia do cheiro acre do quarto; temia virar o rosto e perder algum dos movimentos que ele fazia, indo da janela para cá e para lá – não podia haver uma faca bem oculta naquela calça? - homens como esse, que não fiquem longe dos nossos olhos um segundo. Finalmente, Valdez pareceu resignar-se a alguma coisa já pensada, abriu o guarda-roupa, agachou-se para remexer em algo, com um gemido involuntário, que pareceu envergonhá-lo. Achou que era o momento de matar a curiosidade: - Me diz...Essa perna, isso aí...O que foi?

Ele não respondeu, só balançou a cabeça negativamente, como se a possibilidade, a energia de uma explicação estivesse completamente fora de seu alcance. O que tirara do móvel? Um revólver. Levantou-se da cama, pálido, e recuou, apalpando o que lhe podia estar atrás, porta ou parede. Não falava, apenas fazia negações com a cabeça, com o indicador, dividido entre tentar suplicar para que ele não disparasse e avaliar esguelhas de fuga possível; “pelo amor de Deus”, conseguiu dizer enquanto ele olhava tranquilamente para a arma e sentava-se perto da cama, ocupando o quente do lugar onde acabara de estar. Quando falou, foi a pouca voz, meio como se fosse rir da própria situação ou do pavor que estava infundindo e que ele não podia esconder:

- Me faz um favor, Dida... Ali, naquele caixote. Pega uma garrafa pra mim.

Ele deu os passos necessários, admirando-se de consegui-los, pegou o que era uma das marcas mais baratas de cachaça, já metade bebida, e lhe entregou. Valdez engoliu rápido tudo quanto pôde. Barba molhada, olhos vermelhos, estalou os lábios e sorriu um pouco: - Toma isso... - oferecia-lhe o revólver. – Pode começar atirando aqui – apontou a perna falha, sem olhá-la, só o indicador condescendendo, com exaustão e desprezo.

Nunca tivera revólveres na mão, nunca os imaginara tão pesados, difíceis. Ridiculamente, o pusera nas duas, que estendia, trêmulo, feito carregasse um bebê ou um bicho vivo que, esperneando, poderia lhe escapar e cair. Gritou, atirou a arma para longe, para perto do colo dele e se precipitou para a porta.


Correu, correu o que parecia uma extensão para além de qualquer medida possível, e, no entanto, era apenas isso, o caminho de um corredor, passando por um refeitório, descendo para uma calçada, para o alívio de um mundo cheio de outras pessoas. Mas, na escapada, ouviu um estalo preciso, vindo dos fundos, de longe, sem que tivesse podido prever e tapar os ouvidos. O eco lhe ficou nos tímpanos, guardado como coisa de que precisaria livrar-se mesmo que para isso tivesse que arrancar as próprias orelhas e ganhou a rua, com um cuidado louco para não deixar uma das pernas se parecer de vez com aquela e tropeçar.


2 comentários:

  1. Arrepiante! Não saberia explicar a sensação estranha de estar espectadora, ali, caminhando as ruas, passando pelo bar-mercearia, visualizando tipos esquisitos, cigarros no canto de bocas finas e irônicas, cheiro acre de cachaça, cebola e sujeira em beirada de calçada, mesas desleixadas... Consigo ver, claramente, cada detalhe.
    A conquista, o desespero da busca, o abandono, tão ricamente descritos que não há como deixar de seguir os passos de cada um dos componentes do trio.
    E o desfecho foi a salvação da alma de garoto dentro do corpo de homem. Libertação dos fantasmas do passado? Pode ser... Mas tudo saboroso, apesar do desconforto do personagem que resgata - talvez, sua integridade.
    Gostei demais, não poderia sair sem deixar o "tiro meu chapéu", rsrs.

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  2. Envolvente! Não dá para pausar a leitura de climas densos e personagens plausíveis. Parabéns!

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