Depois de publicar meu primeiro livro
de contos, um livreiro me convidou a fazer palestras num certo circuito
geográfico do interior do estado de São Paulo e enfrentei, então, o público
estudantil, para fazer esta coisa temerária: falar sobre Literatura para
jovens. Constatei, naturalmente, o que era inevitável: que a maior parte do
público não tem a menor ideia do que um escritor faz e do que a vocação (mais que
a profissão) de escritor significa. Na verdade, deparei-me com viciados em
televisão, e fiquei meio sem saber o que fazer. Mas, qualquer escritor que se
disponha a fazer isso, atualmente, topará com essas coisas. E terá que se medir
com implacáveis dificuldades.
A primeira – e a mais notável delas – é
uma mistura de ignorância crassa com cinismo. O que interessa é se o indivíduo
que está ali, na frente, palestrando, é um nome que foi veiculado pela tevê. Se
assim for, pouco importa que esteja querendo falar de Literatura ou da
psicologia dos caranguejos – o que ele tem que fazer, para o público que só
consegue olhar numa direção, é entretê-lo. Se não o conseguir, estará perdido:
a ignorância vai se manifestar em termos de má vontade, gente que se levanta e
vai embora como se tivesse sido enganada (palestras desse gênero são, em geral,
gratuitas, mas o sujeito se irrita como se tivesse comprado um ingresso) ou,
pior, vaias, grossuras, risadas. Se há boa vontade, virão as perguntas – que,
por vezes, revelam uma indigência cultural de assombrar mesmo os mais
pessimistas ou uma inocência dolorosa, do tipo: “Como é que faço pra escrever um livro e ficar famoso?”.
É terrível isso, porque revela que o
sujeito mal ouvia o que o escritor estava tentando dizer: que mal e mal existe
essa profissão num Brasil onde o que há, na melhor hipótese, são semi-alfabetizados
que detestam ler e onde mesmo os escritores famosos nada são, em termos de
fama, para a grande massa.
O desejo é um só - ficar conhecido, não
importando o trabalho que se tenha que fazer: o mérito, o sacrifício, não entra
em conta. A mídia, por interesses consumistas “democráticos”, negligencia o
mérito, as hierarquias naturais de talento das quais ninguém escapa, bombardeia
que tudo neste mundo é uma questão de oportunidade. Daí o serem todos
submetidos à lógica cruel do sistema: tudo fica reduzido a precisar fazer
alguma coisa para ser uma notoriedade. É toda uma geração de monstros sem
cabeça que vem sendo criada, e na base da euforia, como se tudo isso fosse
muito natural, quando, na verdade, a perversidade é completa. Querem ser
usados, espremidos e jogados no lixo. A humilhação não os intimida. Sair na
tevê é tudo. Quem se opõe a isso é esquisito, otário. A possível nobreza das
recusas ou do silêncio indignado, impotente, de modo algum é considerada.
A BUSCA DO TRANSPESSOAL
Ser escritor é bem o contrário de ser
“famoso”. Donde o desânimo que em geral se abate sobre a categoria literária,
cada vez mais esmagada pela necessidade de ter a oferecer algo mais que um bom
trabalho em livro. Sim, é preciso engolir espadas e vomitar fogo.
A falta de sucesso é um componente quase
inevitável da atividade literária, se esta é realmente séria (não que isso seja
desejável – é só uma constatação). Os livros são lançados com esperanças e
muito trabalho, muito sacrifício, mas não passam daquele “sucesso de estima” de
uma noite de autógrafos com poucos amigos e admiradores, algumas vendas
esparsas, mais nada. Em geral, o destino da maior parte desses livros é o
encalhe doméstico; a certa altura, o que o escritor faz é distribuir o que
restou lá por cortesia, para diminuir a pilha. Se o sucesso popular é tudo que
um escritor deseja, nada é menos indicado do que a escrita literária séria para
a realização de seu sonho. Ele poderá até conquistar esse sucesso, mas verá
depressa que não há nada de muito meritório nele, pela superficialidade de seus
leitores, que em maioria adquiriram seu livro devido a alguma badalação
marqueteira que lhe foi necessário fazer, e devido às traições à sua realidade
que será doravante obrigado a empreender, a fim de manter seu relativo sucesso.
Há uma incompatibilidade entre a escrita
empenhada e lúcida e a indústria cultural que nunca é analisada com a devida
profundidade, talvez porque o impasse tenha um significado mais profundo e
trágico do que se possa tolerar. O escritor, ao conseguir algum nome, na certa
acabará no sofá de alguma loura sorridente que fará o possível para torná-lo
palatável à sua audiência. Mas a maquininha não está interessada em Literatura,
nem nunca esteve, a não ser em redes educativas, vistas por pouquíssima gente –
televisão, Fellini bem resumiu, é um eletrodoméstico, tem que produzir
irrealidade o tempo todo, preencher uma programação com o que quer que seja,
entreter, distrair, triturar assuntos e simplificá-los ao máximo para o
entendimento de massa.
O ódio à complexidade pode ser percebido
em qualquer entrevista no qual o entrevistado seja um intelectual ou escritor
disposto a pensar, a revelar matizes, contradições, impasses – e isso se dá até
nas emissoras ditas culturais. O entrevistador se exaspera, porque vê correr o
tempo, quer preto no branco, respostas fáceis e assimiláveis pelos
espectadores, e assim, submetido, o entrevistado percebe que não pode dar um
passo para a elevação intelectual do público de modo algum e se rende. Esta
rendição da complexidade à fórmula simplória para massas é a maior tragédia
cultural de nosso tempo. A facilitação fica sendo facilitação eterna, proibida
de dar o passo seguinte de informar com mais sutileza e rigor.
A facilitação é perversa. O mesmo processo,
aliás, pode ser observado na defesa da leitura da literatura calculista e
vagabunda, feita só para entreter, como um passo inicial no salto para leituras
mais sérias e profundas. Não é verdade: o acostumado à literatura rasa e
comercial, ao procurar um autor mais sério, não encontrando a facilidade de
sempre, na qual se viciou, acaba é hostil ao pensamento matizado, à
complexidade natural e irreversível do mundo, e detestando autores que
rapidamente classificará como pedantes e chatos.
A atitude básica da televisão comercial, ao
entrevistar um escritor, nunca é a de uma pessoa que realmente lê, mas de alguma
tia simpática e de instrução duvidosa que está feliz porque um sobrinho ou um
amigo lançou um livro e trata o assunto com aquele primarismo bem-intencionado
e simplório de quem acha que isso é uma proeza – publicar um livro! O ato e o
produto aparecem como fetiches ingênuos, como façanhas, não se discute a questão,
pouco importa o que se escreveu de fato. Imagina-se, nesses círculos, com os
quais os escritores, bem ou mal, terão que compactuar algum dia (para divulgar
o seu trabalho) que há um caminho simples e linear do publicar um livro para
vendê-lo, que há aí a realização de outro sonho brasileiro, em que se misturam
a malandragem e o deslumbramento de gente em geral incomodada com as suas
origens humildes: o de “ficar bem na vida”, o de ser uma pessoa valorizada
entre doutores e sumidades. A televisão jamais se interessará pela verdade e o
sofrimento que são indissociáveis da vida literária – porque, acima de tudo, a
maquininha é perita na confecção de miragens: mostra sempre o esplendor dos
fins sem mostrar a iniqüidade dos meios. Uma carreira só importa quando é
bem-sucedida: a vala comum em que ficaram os demais candidatos à fama pouco
importa, o mundo é de quem não tem coração algum, embora se mande tantos
“beijos no coração” por aquela telinha. Todos se tornam hipócritas e cúmplices
de uma euforia cuja essência é a crueldade.
Os escritores
que realmente valem alguma coisa estão sempre na galeria dos inconformados, dos
“outsiders”, dos que incomodam deliberadamente os padrões sociais. Têm o dever
de erguer uma voz lúcida contra sandices e venenos vigentes na sociedade. Podem
cair num mau-humor que é mortal para a regra de irrealidade eufórica a qualquer
custo que impera, não escrita, mas fielmente cumprida, nas televisões.
Ora, em algumas
conversas entre escritores, topa-se com outra faceta do horror: pouco se fala
de arte literária, silêncio, exílio, renúncia – fala-se de livros vendidos ou
não vendidos, de colegas que venderam mais (donde as eternas ciumeiras e
briguinhas estúpidas). Quer dizer: reproduz-se, na tribo literária, a corrida
darwiniana de ratos que vige no meio social – importa quem vai chegar primeiro,
quem vai vender mais, como, quando moleques, naquelas rodinhas em que já
aprendíamos a ser uns machões predadores, apostava-se quem urinava mais longe e
quem era dono de uns centímetros a mais.
E vamos arder todos na mesma fogueira,
supondo-nos alguns melhores ou mais íntegros que os outros. A vaidade que não
se reconhece como tal e se impõe à frente de qualquer autocrítica é o pior
inimigo do escritor, do artista em geral. O sujeito de pouco caráter e pouco
talento em geral é desfibrado em sua convicção (se tem alguma) quando elogiado
de maneira automática, viscosa e aduladora – os elogios criam os circuitos de
compadrismo e complacência que são os responsáveis por tanto escritor ruim
passando por sumidade. Na procura de holofotes, o candidato a famoso se esquece
que a arte é feita lá atrás, no silêncio, na obscuridade, no trabalho sem
“personalismos”. E acaba sendo inimigo visceral de gente sincera e penitente,
gente que prefere, até por estratégia, colocar-se sempre criticamente,
humildemente, diante do que fez.
A grande arte sempre procurou o
transpessoal, não a exaltação narcisista de seu fazedor. Bom exemplo disso?
Kafka, que tinha em baixa conta seus próprios escritos e teria preferido ser
homem feliz a escritor de glória póstuma, certamente, mas nada podia fazer
contra uma compulsão de escrever que, nele, era maior que qualquer outra
consideração. A arte, em geral, é tirana assim – pouco importa que o artista
durma em cama de luxo ou catre espartano, pois ele nunca passa de um
instrumento privilegiado (e maldito) dela. Considerações com o sucesso e lucro
são partes do homem comum, não do artista que se abriga sob a casca deste. Mas
poucos são artistas, a grande maioria é homem comum mesmo.
Nada valemos como pessoas, com nossas
predileções bobinhas, sobrenomes, nossos signos astrológicos e essas
futilidades pelas quais as televisões se interessam. Valemos como artistas,
“cavalos” de uma idéia superior, ou nada valemos, e não adianta pensar o
contrário. A arte só lucra com o desinteresse, seu ritmo é outro, seu tempo é o
da eternidade, não o da circunstância, do momento, que é o território da mídia.
O único fracasso que deve nos perturbar é o
de escrever mal, é o de perdermos aquela fibra essencial que caracterizava um
Proust ou um Graciliano. O resto é estupidez ou aquilo contra que o Eclesiastes
nos advertiu – “vaidade vã”, de que os incautos se lambuzam, como se fosse um
doce para lá de delicioso e não o veneno que é.

Nenhum comentário:
Postar um comentário