Enquanto existir uma coisa
chamada Cinema e outra, o cinéfilo, livros sobre Greta Garbo não deixarão de
sair. Dentre os que li, existentes no mercado, creio que o mais completo,
substancial (e contraditório, como não poderia deixar de ser) é “Garbo”, de
Barry Paris, pela editora Nova Fronteira. São 554 páginas para o admirador de
Garbo ficar satisfeito e, ainda assim, pedir mais.
A capa e a contracapa do livro
trazem fotos tão belas de Garbo que o fã corre o risco de comprar o calhamaço,
como muitos, só pela sedução que as fotos exercem. Se for do tipo superficial,
que mais exibe do que lê livros, ficará contente, mas, se exigir mais, terá uma
decepção com o que há lá dentro – as fotos internas, embora de importância
histórica e documental inegável, são em geral reproduções de qualidade bem
duvidosa. O livro acaba valendo de fato – e isto, claro, não é uma
inferioridade – pelo que Barry Paris escreveu.
Mas, no caso de biografias de
astros e estrelas de cinema, o fenômeno básico do “star system” – o da
idolatria cega do espectador a seus deuses– continua em pé. Duvido que alguém
que gostasse de, por exemplo, Lana Turner, e que fosse dotado de algum
discernimento literário, pudesse apreciar o que a estrela escreveu sobre si
mesma (com auxílio de algum “ghost writer”, sem dúvida alguma) num livro da
Francisco Alves chamado “Lana”, ainda encontrável em sebos. Leu como fã, e
nada mais.
Leitura de fã é sempre
apaixonada, uma espécie de consumo vicioso, e os livros desse tipo são
consumidos sem muita exigência de que o escritor seja bom. Basta ser
competente, na linha dos artesãos meticulosos, pesquisadores profissionais e
jornalistas que conhecem seu ofício que a América oferece aos montes. Ninguém
se importa muito, na verdade, já que amar as estrelas de cinema é uma coisa que
forçosamente implica em fraquezas e complacências.
Como cinéfilo, cometo dessas
fraquezas com regularidade, acumulando um bom número de livros sobre atrizes e
atores cuja qualidade está entre o dúbio e o razoável, quando não é ruim mesmo,
como o tal livro autobiográfico de Lana Turner. Nos anos 70 e 80, livros desse
tipo foram saindo sem cessar, pela Francisco Alves e outras editoras – sobre
Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Vivien Leigh, Elizabeth Taylor etc. Fazem
sucesso até hoje, mas só nos sebos.
O autor de “Garbo”, Barry Paris,
teve muito cuidado em seu empreendimento – um monte de gente é citada,
agradecimentos aos depoimentos recolhidos são feitos em profusão e o livro tem
um ar digno e convincente.
Mas, há algo com as biografias de
estrelas que é sempre paradoxal: queremos saber muito, mais, mais, mais,
queremos saber toda a verdade (se tal é possível), juramos exigir qualidade e
rigor, mas ao mesmo tempo, estamos dispostos, por paixão, a ignorar as
manipulações, adulterações, conciliações, remendos, que podem ter sido feitos
pelos biógrafos – estamos ávidos por bisbilhotices saborosas, historinhas que
nunca, na verdade, poderão ser comprovadas, detalhes engraçados, grotescos,
comoventes. Em suma, todo mundo, ao ler um livro desses, é suspeito: suscetível
de ser alimentado por mentiras ou fatóides, está na verdade se curvando ao
ídolo, a um objeto de devoção – e o ídolo desperta um apetite pela
irracionalidade que pode ser despudorado e sem limites. A verdade – onde será
que mora essa senhora mesmo? – conta pouco, nesses casos.
TEMOR À IDOLATRIA
Curiosamente, Garbo foi vítima
precisamente disso, em toda a sua vida. Vítima dessa idolatria que sufoca, que
interroga desesperadamente, que quer entrar em todos os poros do idolatrado,
não deixar um respiradouro para o ser humano, para a pessoa assustada e frágil
que pode existir por debaixo do mito. Essa curiosidade sempre a apavorou.
Era uma moça de grande beleza não
lapidada (bem gordinha, aliás, e com dentes tortos), ao chegar a Hollywood,
levada pelo diretor sueco Mauritz Stiller, e foi “reformatada” pela Metro como a divina Garbo que o mundo
conheceu e amou. Com atos e perguntas ingênuos, que despertavam risadas,
falando Inglês com dificuldade, simplória como uma camponesa sueca sob muitos
aspectos, ficou isolada em Hollywood, detestando o sol e o calor da Califórnia,
morrendo de saudades da Suécia. Molhava-se o tempo todo, para combater o calor,
e sonhava com neve (ver, a este respeito, a volúpia com que se cobre de neve em
“Rainha Cristina”).
Mauritz Stiller, o diretor que a
levou, era um homem famoso na Europa e não gostou do sistema americano, pois os
produtores não simpatizaram com seu excesso de ego (ególatras quem tinha
direito a ser eram eles, e ninguém mais), e, além disso, era homossexual,
envolvia-se liberalmente com rapazes, ignorando o puritanismo da América. Resultado:
acabou voltando para a Suécia sem fazer filme algum e morreu esquecido. Sem seu
mentor, solitária, Garbo ficou em Hollywood como um alienígena perdido em
planeta estranho e foi obrigada a construir sua carreira com dramalhões em
geral horrorosos.
Ela detestava tudo aquilo e,
forçada a adaptar-se aos modelos publicitários dos estúdios da Metro, foi aos
poucos rebelando-se contra toda aquela hipocrisia puritana, alimentada por
fuxicos sádicos. Recolhia-se, esquivava-se. Como tornou-se um grande sucesso,
aprendeu a fazer as coisas à sua maneira e a impor seu temperamento difícil. A
“griffe” Garbo, no final dos anos 20 e nos anos 30, passou a incluir a recusa
obstinada à publicidade. Era uma aversão verdadeira, e foi tomada como pose.
Mas, ela estava envolvida em contradições insolúveis – ser uma estrela de
cinema amada pelo mundo inteiro e ao mesmo tempo uma eremita é coisa para
enlouquecer.
É muito boa a parte do livro que
cuida de sua infância, quando Barry Paris a mostra como uma menina que parecia
ter consciência de que era predestinada a ser uma rainha solitária e mostrava
já um enorme medo da fama. Isso não parece charme nem teoria romanesca com
fumaça de misticismo adequada à mitificação – Garbo parecia mesmo
patologicamente sensível à superexposição, e, mesmo com uma vaidade humanamente
compreensível, nunca se reconciliou com os preços concretos e inevitáveis
decorrentes da fama. Sofreu com essa situação mais que qualquer outra estrela
que se conheça, pois foi a mais famosa de todas. Esse é seu maior enigma, e
parece uma brincadeira particularmente cruel do Destino que uma mulher tão fóbica
a essas coisas tenha se tornado a criatura mais famosa (e exposta) do planeta.
Quanto aos filmes, alguém
escreveu que Garbo passava por eles como uma condessa fazendo visita a uma
favela. E é verdade: a maior parte são peças de museu que não merecem
reverência, embaladas pela música de um certo Herbert Stothart, compositor da
Metro que roubava escandalosamente melodias de Tchaicovksy. Seus galãs foram,
no mais das vezes, atores fracos, quando não canastrões inaceitáveis. Os únicos
filmes dela que se salvam são “Rainha Cristina”, “Ninotchka” e “A dama das
camélias”, porque, tivessem quantos defeitos tivessem, ajustavam-se feito luva
à sua personalidade. Há também a sua interpretação marcante para a heroína de
Tolstoi em “Ana Karenina”, em que parece amar mais o filho que o amante (o
conde Vronski, vivido por Fredric March) e está soberba como a grande suicida.
Teria sido uma Ema Bovary perfeita, mas, quando Hollywood lembrou-se de filmar
a heroína de Flaubert, confiou-a a Jennifer Jones num filme de Vincent Minnelli
que ficou esquecido.
Sua carreira termina nos anos 40,
com o fracasso de uma comédia, “Duas vezes meu”, que parece nem ser lembrada no
Brasil (ou em qualquer outro lugar do mundo), quando foi dirigida por George
Cukor. Já erguera sua fama dúbia – diziam-na lésbica, mas nada se provava,
embora tivesse muitas amigas homossexuais e gostasse de ser cortejada por elas.
A Metro inventou que tinha um caso com o galã John Gilbert (risível em “Rainha
Cristina”), e ele na certa esteve apaixonado por ela, mas Garbo era avessa ao
casamento, avessa a ligações, e sempre foi assim – parecia querer ser amada,
mas a idéia de intimidade constante, regular, a apavorava.
Os casos mais ou menos públicos
que teve foram célebres – com o maestro Leopold Stokowski e com o fotógrafo
Cecil Beaton. Beaton era homossexual assumido e talvez por isso não a
incomodasse muito (a agressividade que ela supunha ser inseparável dos homens heterossexuais
a apavorava). Mas ele foi oportunista com ela, mais que a amou: fotografou-a e
divulgou fotos sem a sua aprovação, e ela nunca o perdoou por isso. Traiu-a no
que mais prezava: sua privacidade, a divulgação de sua imagem não-pública.
Garbo temia essas coisas de maneira primitiva, como algumas tribos indígenas,
que sempre acharam que as máquinas fotográficas roubariam as suas almas.
Tudo indica, a partir de Gilbert,
Stokowski e Beaton, que foi bissexual, mas sem entusiasmo. Referia-se a si
mesma, na intimidade com as amigas “entendidas”, como um homem, de vez em
quando: “O garoto aqui fez isso... o garoto aqui fez aquilo.” Lançou uma moda
andrógina, andava de calças masculinas, gostava de atitudes mais masculinas que
femininas, pediu a Aldous Huxley, ninguém menos, que escrevesse um roteiro
sobre a vida de São Francisco de Assis para ela – queria interpretar o santo,
usando um bigode. Era uma grande caminhante, adepta do vigor físico com certo
fanatismo, mas, a rigor, era tudo e nada, sexualmente.
FORA DAS TELAS, DE VOLTA À BANALIDADE
Quando se afastou do cinema, era
já uma mulher muito rica (e com fama de sovina). Aí, afastada da tela, Garbo
reassume, na verdade, uma personalidade um pouco banal superestimada pelo fato
de ser uma reclusa, de ter sido quem foi. Volta e meia ameaça voltar às telas
com roteiros que lhe são oferecidos por dezenas de diretores e produtores que a
veneram, mas não volta. Dedica-se aos amigos (muito ricos, em geral) e a uma
vida em fuga aos repórteres, fãs, revistas, jornais, televisões – sempre
apavorada com ser reconhecida, multiplicando pseudônimos, arranjando endereços
e números de telefone a que raríssimos tiveram acesso.
Passará a sua vida, envelhecerá,
como uma criatura “à deriva” (ela mesma dizia isso), contando com a
cumplicidade dos amigos milionários para continuar esquiva, escondendo-se na
Suiça, andando pelas ruas de Nova York como uma transeunte comum, debaixo de
roupas sem graça e óculos escuros.
É onde o livro começa a ficar
enfadonho. Garbo chega a nos parecer uma egomaníaca insuportável, abusiva com
os amigos de quem exige códigos, mudanças de comportamento, dezenas de
concessões e ajustamentos para que não seja perturbada, para que os importunos
não apareçam. Não desperta simpatia essa ociosa que decide viver numa vadiagem
sem sentido, abastecida por uma conta bancária segura, pelo resto da vida.
Parece uma solteirona neurótica, desocupada e com mania de dietas, remédios, de
freqüentar charlatões “esotéricos” etc. É dada a rompantes de generosidade,
mas, em geral, como toda pessoa muito rica, tem um culto doentio ao dinheiro
pelo dinheiro, e com um jeito de velha avarenta, egoísta, ranzinza, que não
gostaríamos de ter como vizinha. Como leitor, dá vontade de parar a leitura e
declarar que seus sofrimentos são uma frescura, que seu exílio de rainha do
passado é uma chantagem emocional para manipular todos ao redor, e a gente
espera que alguém de seu círculo tenha um dia a coragem de lhe dizer isso. Mas,
todo mundo a venera e tolera.
Ela não podia se queixar: teve
idólatras e fãs embasbacados até o fim da vida. Carregou para o seu pequeno
círculo privado a adulação pública que teve na Metro, nos anos de cinema. É
duvidosa a sua ojeriza a ser paparicada – contraditoriamente, ela gostava
bastante disso. O que queria era ser paparicada de um modo muito peculiar,
segundo um código pessoal bastante restrito.
O que há de poesia, nessa árida
segunda parte do livro, é uma confissão patética: saía de casa em Nova York e se punha a
seguir qualquer pessoa desconhecida na multidão, indo onde a tal pessoa
escolhida fosse, apenas para fazer de conta que possuía um objetivo, um rumo,
confundindo-se com uma humanidade de que sempre procurou ficar distante.
Nessas perambulações, era
reconhecida por muita gente – outros famosos, como o escritor Truman Capote.
Faziam parte de um grupo informalmente conhecido como os “Vigilantes de Garbo”.
Há uma beleza nisso – gente que protege a solidão de um mito das implacáveis
investidas e da curiosidade estúpida do mundo. E morreu assim, com pouca gente
por perto, sem voltar ao cinema, rarefeita, só lembrada pelo rosto e por ter sido
o único encanto (aliás, persistente) de muitos filmes ruins.
“Garbo” junta muito material
contraditório e é um pouco cansativo, apesar de detalhado e bem escrito. É o
livro mais completo existente sobre a estrela no mercado brasileiro. E
reconheço que, quem não a admire muito, não poderá ser criticado pela falta de
paciência para ir até o fim com a leitura.
Mas, vale a pena comprá-lo, nem
que não seja para lê-lo. Muita gente ficará satisfeita só de olhar para a capa
e a contracapa. Um rosto como aquele, difícil haver outro.
Clarice Lispector carregava
consigo uma fotografia de Garbo, dizem. Faz sentido. Olhar para ela é olhar
para uma belíssima pergunta, das muitas que a escritora formulou. Sem resposta
possível.


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