sexta-feira, 10 de julho de 2015

GILBERTO E ROSANGELA, CÚMPLICES VITAIS DE MEU LIVRO DE MEMÓRIAS



Foi grande sucesso em Novo Horizonte, SP, e atingiu muitos não-novorizontinos, que viram no livro um depoimento honesto e contundente, o meu livro de memórias A HERANÇA E A PROCURA.
Lançado em 8 de junho de 2012, no Salão Hafle, numa noite de autógrafos com enorme presença do público e muito boa vendagem de exemplares, A HERANÇA E A PROCURA mostra uma síntese lírico-realista dos meus 40 anos vividos em Novo Horizonte.
O livro existia, mas permaneceu um bom tempo na gaveta, não podendo ser publicado. Não teria chegado ao público, aliás, não fosse a generosidade de GILBERTO CARLOS RIGAMONTI (foto), meu particular amigo de Novo Horizonte, figura onipresente em tempos de juventude, quando nos divertíamos muito indo ao cinema ver comédias, ouvindo músicas no rádio (queríamos escrever letras de música como Caetano e Chico, mas éramos apenas sonhadores). Gilberto, que também é poeta, mas daqueles que vivem na moita e raramente mostram o que escrevem, foi figura marcante, abrindo o mundo literário para mim ao me emprestar CAPITÃES DE AREIA, de Jorge Amado. Ele ressurgiu em minha vida quando do lançamento de meu romance O ESTRANHO NO CORREDOR na Livraria Cultura em São Paulo (2011) e, quando falei do livro de memórias em que ele era citado, quis naturalmente conhecê-lo. Fez mais que conhecer: bancou o risco dos 600 exemplares tirados na editora Ler em Brasília, que nos foi indicada pela escritora mineiro-brasiliense Rosângela Vieira Rocha, que também fez o prefácio. Amigos de primeira.







                                             
  Prefácio/ A HERANÇA E A PROCURA

                "O tempo presente e o tempo passado
                 Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
                 E o tempo futuro contido no tempo passado"

            Com esses versos, T. S. Eliot inicia um dos seus Quatro Quartetos, nos quais reafirma a sua concepção de tempo, elemento constante em sua obra. Rejeitando as leis da cronicidade mecanicista, ele "intui metafisicamente o tempo enquanto processo interior da consciência, uma espécie da continuum psicológico", nas palavras de Ivan Junqueira, tradutor de T. S. Eliot - Poesia, publicado pela editora Nova Fronteira.
            A leitura de A herança e a procura, de Chico Lopes, mostra-nos, a cada página, a pertinência da visão do genial poeta, cuja obra influenciou e continua influenciando a poesia produzida hoje em diversas regiões do mundo.
            O que mais impressiona, nas memórias de Chico Lopes, é verificar que as personagens de Nó de sombras, Dobras da noite e Hóspedes do vento, seus três livros de contos, e da novela O estranho no corredor, sua primeira incursão na narrativa longa, saltam, a todo momento, das experiências narradas em A herança e a procura. Não se trata de um salto direto, é claro, mas o leitor atento pode encontrá-las de forma embrionária - um traço aqui, um rabisco ali, uma pitada de cor acolá, um sabor, embora sutil, um cheiro que surge não se sabe de onde. Enquanto acompanha o fio condutor dessas vivências, o leitor vai se dando conta de que esses elementos seriam (e foram) posteriormente retomados por meio de cuidadoso trabalho de criação, capaz de esculpi-los e de transformá-los definitivamente em personagens complexas, em sua maioria angustiadas, meio perdidas, quase sempre à procura de identidade e de um lugar que lhes pertença de fato.
            Nestas memórias, nada que aparece é gratuito, nada é descartável. Relativamente curto, escrito em linguagem aparentemente simples, o texto contém as lembranças afetivas essenciais do autor. Sabe-se, o tempo todo, que, embora não tivesse consciência disso - e nem poderia, na época - o menino Chico Lopes já se sentia enredado pela arte, em suas diferentes manifestações, o que lhe trazia o desassossego, a inadequação, os desajustes e seu contraponto - a esperança, ainda que rarefeita - comuns entre os artistas, especialmente entre os que vivem ou viveram, como ele, em pequenas cidades interioranas.
            Durante muitos anos, Chico acreditou que seguiria o ofício de desenhista e pintor, chegando a vender quadros e a fazer exposições. Na escola, quando a matéria não o interessava, para desespero de seus professores, desenhava durante as aulas. E depois vendia esses desenhos, quando conseguia compradores. O dinheiro lhe servia para cobrir pequenas despesas como cigarros, lanches, refrigerantes e, sobretudo, para ir ao cinema, outra de suas paixões, que transformou-o mais tarde em crítico atuante em jornais e, atualmente, em blogs e sites especializados.
            Nascido na pequena cidade de Novo Horizonte, São Paulo, hoje residente em Poços de Caldas, Minas Gerais, Chico Lopes conhece bem os obstáculos impostos ao fazer artístico, sobretudo em cidades que oferecem poucas perspectivas de apresentação das obras e/ou de obtenção do reconhecimento do público.
            Parece existir uma tendência, provavelmente maior nas comunidades pequenas, de rejeitar aqueles que, diferentemente da maioria, ousam mais, desejam mais, não se contentam em fazer parte da média, não abrem mão de suas buscas e de suas aspirações, possuindo a coragem de colocar a cabeça do lado de fora e de soltar a voz, reivindicando um lugar próprio.
            O autor retrata com propriedade esse universo interiorano, contando episódios que envolvem mexericos, ressentimentos, ciúme, inveja, humilhações, competição, essas ninharias tão mesquinhas e ao mesmo tempo tão humanas, que constituem, como disse Jung, o nosso lado "sombra", sem deixar de mencionar aspectos mais luminosos, gerados pela generosidade, pela empatia e pela solidariedade.
            Há que se destacar também, que, embora revele uma infinidade de aspectos e características da personalidade do autor - e não poderia ser diferente, em se tratando de uma autobiografia - o texto possui uma aura própria, sinal de que foi escrito com certo distanciamento. Em diversas passagens, fica bastante evidente o senso crítico e autocrítico do narrador, que não se deixa levar, em nenhum momento, pela autocompaixão e autojustificação.
            Localizada em Novo Horizonte, a rua Antonio Sabino, onde o autor nasceu e viveu durante dezesseis anos, e na qual morou depois em períodos distintos, é uma constante na narrativa. O leitor fica ciente de que essa rua modesta, que levou anos para ser calçada, "determinava" - por assim dizer - algumas características do comportamento de seus moradores, sobretudo dos jovens dos anos sessenta e setenta. Em certa passagem, um dos amigos de Chico chega ao ponto de dizer "nós, os da rua Antonio Sabino", como se ela tivesse um poder de predestinação, tal é a importância que assume no imaginário daquele grupo de amigos.
            Caçula de uma família muito simples, pouco inclinada à leitura, filho de espanhol com uma brasileira de origem italiana, com irmãs bordadeiras e costureiras e irmãos que exerciam ofícios igualmente modestos, Chico levou anos debatendo-se entre as exigências impostas pela mãe compreensiva, mas exigente e superprotetora, que o queria contador ou bancário, e o pai indiferente, quase hostil.
            Com poucos recursos, a mãe fez todos os esforços possíveis para que ele tivesse uma boa formação, mas não pôde lhe pagar os cursos que desejava. Restou ao autor o caminho do autodidatismo, que ele, por vezes de maneira titubeante, passou a buscar. Foi assim que aprendeu inglês - hoje é tradutor profissional de editoras conceituadas - e, assistindo a todos os filmes possíveis, tornou-se crítico de cinema.
            Mais do que a história de seu autor, A herança e a procura é um retrato sociológico e até certo ponto sentimental de uma época, de uma geração e de uma cidadezinha do interior paulista, que em quase nada difere de outras tantas, pelo Brasil afora, além de apresentar, também, informações muito ricas sobre algumas décadas da história do cinema.
            Vale a pena conhecer essas memórias, que nos levam à compreensão de como nasce um grande escritor, mais especificamente como surgiu o escritor Chico Lopes, e de onde veio a matéria-prima de suas narrativas, com seus delicados, sensíveis, por vezes angustiados, esgarçados e quebradiços fios.
            Para concluir, vale citar os versos finais do magnífico Soneto da Memória, de Fernando Mendes Vianna:

                                                        "Mito ou deus, só tua luz sutura
o que a vida despedaça e corta.
Por ser alma é que a memória dura".
Rosângela Vieira Rocha
Jornalista, professora e escritora








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