Foi grande sucesso em Novo Horizonte, SP, e atingiu muitos não-novorizontinos, que viram no livro um depoimento honesto e contundente, o meu livro de memórias A HERANÇA E A PROCURA.
Lançado em 8 de junho de 2012, no Salão Hafle, numa noite de autógrafos com enorme presença do público e muito boa vendagem de exemplares, A HERANÇA E A PROCURA mostra uma síntese lírico-realista dos meus 40 anos vividos em Novo Horizonte.
O livro existia, mas permaneceu um bom tempo na gaveta, não podendo ser publicado. Não teria chegado ao público, aliás, não fosse a generosidade de GILBERTO CARLOS RIGAMONTI (foto), meu particular amigo de Novo Horizonte, figura onipresente em tempos de juventude, quando nos divertíamos muito indo ao cinema ver comédias, ouvindo músicas no rádio (queríamos escrever letras de música como Caetano e Chico, mas éramos apenas sonhadores). Gilberto, que também é poeta, mas daqueles que vivem na moita e raramente mostram o que escrevem, foi figura marcante, abrindo o mundo literário para mim ao me emprestar CAPITÃES DE AREIA, de Jorge Amado. Ele ressurgiu em minha vida quando do lançamento de meu romance O ESTRANHO NO CORREDOR na Livraria Cultura em São Paulo (2011) e, quando falei do livro de memórias em que ele era citado, quis naturalmente conhecê-lo. Fez mais que conhecer: bancou o risco dos 600 exemplares tirados na editora Ler em Brasília, que nos foi indicada pela escritora mineiro-brasiliense Rosângela Vieira Rocha, que também fez o prefácio. Amigos de primeira.
Prefácio/ A HERANÇA E A PROCURA
"O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado"
Com esses versos, T. S. Eliot inicia
um dos seus Quatro Quartetos, nos
quais reafirma a sua concepção de tempo, elemento constante em sua obra.
Rejeitando as leis da cronicidade mecanicista, ele "intui metafisicamente
o tempo enquanto processo interior da consciência, uma espécie da continuum
psicológico", nas palavras de Ivan Junqueira, tradutor de T. S. Eliot - Poesia, publicado pela editora
Nova Fronteira.
A leitura de A herança e a procura, de Chico Lopes, mostra-nos, a cada página, a
pertinência da visão do genial poeta, cuja obra influenciou e continua
influenciando a poesia produzida hoje em diversas regiões do mundo.
O que mais impressiona, nas memórias
de Chico Lopes, é verificar que as personagens de Nó de sombras, Dobras da noite e Hóspedes do vento, seus três livros de contos, e da novela O estranho no corredor, sua primeira
incursão na narrativa longa, saltam, a todo momento, das experiências narradas
em A herança e a procura. Não se
trata de um salto direto, é claro, mas o leitor atento pode encontrá-las de forma
embrionária - um traço aqui, um rabisco ali, uma pitada de cor acolá, um sabor,
embora sutil, um cheiro que surge não se sabe de onde. Enquanto acompanha o fio
condutor dessas vivências, o leitor vai se dando conta de que esses elementos seriam
(e foram) posteriormente retomados por meio de cuidadoso trabalho de criação,
capaz de esculpi-los e de transformá-los definitivamente em personagens
complexas, em sua maioria angustiadas, meio perdidas, quase sempre à procura de
identidade e de um lugar que lhes pertença de fato.
Nestas memórias, nada que aparece é
gratuito, nada é descartável. Relativamente curto, escrito em linguagem
aparentemente simples, o texto contém as lembranças afetivas essenciais do
autor. Sabe-se, o tempo todo, que, embora não tivesse consciência disso - e nem
poderia, na época - o menino Chico Lopes já se sentia enredado pela arte, em
suas diferentes manifestações, o que lhe trazia o desassossego, a inadequação,
os desajustes e seu contraponto - a esperança, ainda que rarefeita - comuns
entre os artistas, especialmente entre os que vivem ou viveram, como ele, em pequenas
cidades interioranas.
Durante muitos anos, Chico acreditou
que seguiria o ofício de desenhista e pintor, chegando a vender quadros e a
fazer exposições. Na escola, quando a matéria não o interessava, para desespero
de seus professores, desenhava durante as aulas. E depois vendia esses
desenhos, quando conseguia compradores. O dinheiro lhe servia para cobrir
pequenas despesas como cigarros, lanches, refrigerantes e, sobretudo, para ir
ao cinema, outra de suas paixões, que transformou-o mais tarde em crítico
atuante em jornais e, atualmente, em blogs e sites especializados.
Nascido na pequena cidade de Novo Horizonte,
São Paulo, hoje residente em Poços de Caldas, Minas Gerais, Chico Lopes conhece
bem os obstáculos impostos ao fazer artístico, sobretudo em cidades que
oferecem poucas perspectivas de apresentação das obras e/ou de obtenção do
reconhecimento do público.
Parece existir uma tendência,
provavelmente maior nas comunidades pequenas, de rejeitar aqueles que,
diferentemente da maioria, ousam mais, desejam mais, não se contentam em fazer
parte da média, não abrem mão de suas buscas e de suas aspirações, possuindo a
coragem de colocar a cabeça do lado de fora e de soltar a voz, reivindicando um
lugar próprio.
O autor retrata com propriedade esse
universo interiorano, contando episódios que envolvem mexericos,
ressentimentos, ciúme, inveja, humilhações, competição, essas ninharias tão
mesquinhas e ao mesmo tempo tão humanas, que constituem, como disse Jung, o
nosso lado "sombra", sem deixar de mencionar aspectos mais luminosos,
gerados pela generosidade, pela empatia e pela solidariedade.
Há que se destacar também, que,
embora revele uma infinidade de aspectos e características da personalidade do
autor - e não poderia ser diferente, em se tratando de uma autobiografia - o
texto possui uma aura própria, sinal de que foi escrito com certo
distanciamento. Em diversas passagens, fica bastante evidente o senso crítico e
autocrítico do narrador, que não se deixa levar, em nenhum momento, pela
autocompaixão e autojustificação.
Localizada em Novo Horizonte, a rua
Antonio Sabino, onde o autor nasceu e viveu durante dezesseis anos, e na qual
morou depois em períodos distintos, é uma constante na narrativa. O leitor fica
ciente de que essa rua modesta, que levou anos para ser calçada,
"determinava" - por assim dizer - algumas características do
comportamento de seus moradores, sobretudo dos jovens dos anos sessenta e
setenta. Em certa passagem, um dos amigos de Chico chega ao ponto de dizer
"nós, os da rua Antonio Sabino", como se ela tivesse um poder de
predestinação, tal é a importância que assume no imaginário daquele grupo de
amigos.
Caçula de uma família muito simples,
pouco inclinada à leitura, filho de espanhol com uma brasileira de origem
italiana, com irmãs bordadeiras e costureiras e irmãos que exerciam ofícios
igualmente modestos, Chico levou anos debatendo-se entre as exigências impostas
pela mãe compreensiva, mas exigente e superprotetora, que o queria contador ou
bancário, e o pai indiferente, quase hostil.
Com poucos recursos, a mãe fez todos
os esforços possíveis para que ele tivesse uma boa formação, mas não pôde lhe
pagar os cursos que desejava. Restou ao autor o caminho do autodidatismo, que
ele, por vezes de maneira titubeante, passou a buscar. Foi assim que aprendeu
inglês - hoje é tradutor profissional de editoras conceituadas - e, assistindo
a todos os filmes possíveis, tornou-se crítico de cinema.
Mais do que a história de seu autor,
A herança e a procura é um retrato
sociológico e até certo ponto sentimental de uma época, de uma geração e de uma
cidadezinha do interior paulista, que em quase nada difere de outras tantas,
pelo Brasil afora, além de apresentar, também, informações muito ricas sobre
algumas décadas da história do cinema.
Vale a pena conhecer essas memórias,
que nos levam à compreensão de como nasce um grande escritor, mais
especificamente como surgiu o escritor Chico Lopes, e de onde veio a
matéria-prima de suas narrativas, com seus delicados, sensíveis, por vezes
angustiados, esgarçados e quebradiços fios.
Para concluir, vale citar os versos
finais do magnífico Soneto da Memória,
de Fernando Mendes Vianna:
"Mito ou deus, só tua luz
sutura
o que a vida despedaça e corta.
Por ser alma é que a memória
dura".
Rosângela Vieira Rocha
Jornalista,
professora e escritora

Nenhum comentário:
Postar um comentário